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segunda-feira, outubro 02, 2006

Bem gostava...

... Já aqui tinha prometido que não voltaria ao assunto. Apenas faço um parêntesis no meu silêncio, uma vez que deparei com um comentário do colega da blogosfera "alcobacense" quanto à especulação que levantei relativamente ao prémio entregue pelo Região de Leiria. O motivo do comentário está relacionado com o sucesso da obra do Rossio a nível internacional. Nem vou discutir os prémios, mas sabemos que as bienais de arquitectura baseiam a sua apreciação em critérios de natureza estética e nas memórias descritivas do projecto que lhes são enviados...
Falo-lhe directamente amigo alcobacense, mas mantendo-me distante de polémicas, sabe que raramente discuti a parte estética, é o que menos me importa, mas sabe perfeitamente que houve muito mais que me tornou desconfiado e crítico em relação ao projecto...
Os meus motivos são claros (mesmo que possam estar errados) e estão publicados neste espaço. Se acompanhou a discussão durante a obra sabe que há factos que nunca foram desmentidos e que sempre que fui atacado fui por coisa às quais nunca dei grande importância!
De qualquer maneira e como acho que estamos todos do mesmo lado, mesmo que por vezes em desacordo, ficam os meus cumprimentos. Passe por cá porque a porta está aberta... como viu durante a polémica que mencionou.
Abraço

sábado, junho 24, 2006

Toda a história e algo mais

Consegui agora ter alguns minutos para encerrar esta polémica incrível que resvalou para tudo menos para o essencial e onde se manteve um curioso silêncio sobre o motivo das minhas dúvidas: as obras e o processo como decorreram. Ao enviar um mail ao Região de Leiria pretendi manifestar a minha discordância com a atribuição de um prémio ao arquitecto de uma obra tão fracturante como a que aconteceu no Rossio de Alcobaça. Ao mesmo tempo coloquei um post, sobre o mesmo tema, neste blog. Entretanto recebo a resposta do jornal Região de Leiria.
Pedi autorização, por mail, ao mesmo jornal para publicar essa mesma resposta. Recebi um mail que, basicamente foi, o reenvio do meu e onde o único novo texto era que para mais informaçãoes teria de contactar o Departamento de Marketing. Analiso agora à distância que talvez me tenha sido reenviado porque a formatação do texto se encontrava alterada por motivos que me são desconhecidos. Não sei se foi. No entanto, como explico no post anterior, nada referia o facto de ter de esperar por uma autorização.
Sou acusado de falta de seriedade neste caso quando a minha única intenção foi colocar a DEFESA do Região de Leiria para que cada um tirasse a sua conclusão. Não consigo compreender o porquê de tão fulminante ataque.
Nunca ninguém me ouviu falar de conspirações, de trocas de administrações e filiações, tudo isso foram expressões e comentários de leitores. As minhas dúvidas foram levantadas sempre como tal. Como dúvidas. Não consigo compreender este tipo de reacções. Se tudo o que disse foi realmente tão estúpido, qual é a dificuldade em rebater as minhas dúvidas, em mostrar que são ridículas? Todas as minhas perguntas são claras e são colocadas como tal, nunca como factos consumados.
Ao Região de Leiria (jornal que sempre prezei e por isso me causou maior estupefação o prémio e esta reacção e por isso manifestei o meu espanto) só quero dizer que considero estéril esta polémica, que tenho direito à minha opinião e que sempre publicarei as suas respostas. Mesmo que para isso seja ameaçado. Repito, mesmo sobre ameaça e nunca ao contrário. Porque ao contrário do que afirmam é essa a minha conduta.
Não acuso ninguém de falta de seriedade como me foi feito pessoalmente. Apenas afirmei, como posição pessoal que mantenho, que a atribuição deste prémio, neste contexto, nesta data, fica indelevelmente ligado a um processo tão fracturante como a obra de Gonçalo Byrne. Pouco mais acrescentei ao meu primeiro texto para o jornal e no blog para ser atacado desta forma.
Apenas se trata da opinião de Miguel Silvestre, que não tem pretensões a ser dono da razão, mas meus amigos, eu que tanto falo desta questão (estou farto) ouço muito poucas respostas e ainda menos argumentos que rebatam as minhas dúvidas e opiniões.
Neste momento já nem falo para o Região de Leiria...
Com ameças ou não continuarei a dizer o que penso e a ser construtivo e crítico. Todos os que passam por este blog devem reconhecer que sempre que critiquei um caminho apontei outro. A forma estridente como se lidam com dúvidas, críticas e alternativas não nos deve inibir de continuar a pensar a sociedade em que nos vivemos, sejam eles autarquias, imprensa regional e local (peço desculpa pelo lapso...) e naturalmente cidadãos e seus espaços de opinião.
Falo daquilo que sou e do que gosto, por isso me exponho correndo o risco de que as pessoas me desconsiderem, não me compreendam e até me ofendam. Convivo com tudo isso de uma forma diferente da forma como convivo com o erro, principalmente com os meus. Se às primeiras atitudes dou pouca relevância, já quanto ao erro só o aceito quando é humilde. Por isso pedi desculpa por ter publicado a vossa defesa, apesar do processo, por isso peço desculpa por me ter deixado arrastar por esta confusão de nomes de jornais que não criei, mas não peço desculpa por pensar de forma diferente e confrontar os actores da nossa sociedade pelas opções que tomam, principalmente aqueles que estão em funções públicas, da mesma forma que me confrontam a mim quando não estão de acordo com o que digo e escrevo.
Estou cansado de falar do Rossio, dos que não admitem os erros, das reacções daqueles que durante tanto tempo defenderam a obra e a agora a criticam. Só peço a toda a gente que, neste momento, deixem as coisas assentar pois vamos todos ter que nos habituar à ideia. A fractura é profunda e a mim continuará a doer-me muito aquilo que foi feito, o que se disse, o que se mentiu em tribunal, etc. Só peço é que não seja aumentada com prémios ou manifestações de desprezo a todos aqueles que pensaram e pensam de forma diferente.
Sinceramente... desejo felicidades a todos: ao Região de Leiria e a toda a imprensa, ao arquitecto Gonçalo Byrne, ao presidente da Câmara Municipal Gonçalves Sapinho, ao Ippar na pessoa do arquitecto Flávio Lopes, aos autores das tarjas de afirmação da obra e principalmente aos que obrigaram a que fosse seguido um "plano" de contigência para o Rossio. Já temos mais árvores, uma praça a menos com inclinação, as esplanadas fora das estradas, novo saibro. A mudança foi de tal maneira que até já temos trânsito outra vez! A minha "falta de seriedade" fez-me falar de tudo isso quando era bem mais fácil dizer que sim a tudo, mas defeito ou feitio é assim que sou.
Continuem a passar por cá, porque vou tentar, e para isso preciso da ajuda de todos (!!), fechar esta mágoa que custa a passar e caminhar em direcção a novos temas porque o concelho não se esgota numa obra destas.
Abraço

A minha resposta...


Ex.ma Sra.

Recebi o seu e-mail com alguma surpresa, mas admitindo que eu possa ter sido a fonte da incompreensão. No entanto, escrevo-lhe para perguntar se não me enviou um mail (reencaminhou o meu) onde o único texto da vossa parte afirmava que para mais informação teria de contactar o vosso Departamento de Marketing?
Nada afirmava, nesse mail, que teria de aguardar uma resposta da vossa parte, pareceu-me inclusivamente de alguma indiferença face ao que tinha escrito. Assim sendo tomei a liberdade de publicar o seu texto, de forma integral. Repito, de forma integral e impoluta.
Quanto às considerações que teceu, ou melhor o seu jornal, sobre a minha pessoa, não comento. No entanto chamo atenção que todos os meus textos são identificados e não sou eu quem faz a confusão entre os dois jornais "regionais". Conheço a diferença entre ambos os jornais e o facto comentado de forma errada, foi imediatamente detectado por outro leitor do blog. Logo estranho a forma como a crítica me foi lançada.
No entanto peço as minhas desculpas pela publicação, mesmo que tenha partido de um acto de comunicação falhada de parte a parte.


Cumprimentos,
Miguel Trindade Silvestre

P.S. Reservo o direito de publicar a minha resposta no mesmo espaço, dando inclusivamente algum tempo para análise individual de cada leitor.

quarta-feira, junho 21, 2006

Resposta do jornal Região de Leiria

"Exmo. Senhor
Miguel Silvestre

Constatamos com profundo desagrado que a nossa resposta ao seu comentário, sobre a atribuição do Troféu Afonso Lopes Vieira ao Arquitecto Gonçalo Byrne, se encontra publicada no blog “Capela do Desterro”, sem autorização prévia da nossa parte.

O senhor fez o pedido para a publicar, mas não soube esperar pela resposta. A blogosfera, aquele que diz ser “o meio encontrado por todos aqueles que discordaram do processo e da obra [requalificação de Alcobaça] devido à falta de investigação jornalística da imprensa local”, exibe comentários à posição do Região de Leiria verdadeiramente inaceitáveis, pela inexactidão e sobretudo pela falta de seriedade.

A título de exemplo, registamos a confusão entre o Região de Leiria e o Jornal de Leiria e a observação que faz ao nosso “silêncio” sobre a obra de Alcobaça. A primeira revela um desconhecimento total em matéria de imprensa regional, e não local como lhe chama. A segunda é sintomática da sua falta de capacidade para ver a floresta, preferindo atentar numa árvore que não colhe as suas preferências.

Tal como o Miguel Silvestre, também achamos que os que frequentam o seu blog têm o direito à opinião, seja ela qual for, mas também de ouvir a nossa explicação e fazer o seu próprio juízo. Nesse sentido, gostaríamos que também inserisse esta nossa mensagem, para que os seus frequentadores possam ver a diferença entre blogs e jornais. Em matéria de rigor e seriedade, estamos a anos-luz.

Se não publicar esta nossa resposta, tiraremos as devidas ilações e tomaremos as medidas que entendermos convenientes.

Com os melhores cumprimentos


Patrícia Duarte"

quarta-feira, junho 14, 2006

A resposta do jornal Região de Leiria

"Exmo. Senhor
Miguel Silvestre

Em resposta à mensagem que nos enviou, na qual contesta a atribuição do Troféu Afonso Lopes Vieira ao Arquitecto Gonçalo Byrne - na categoria “Personalidade” e não “Personalidade do Ano” como refere - informamos que a decisão partiu de uma reflexão conjunta da direcção e da redacção do jornal, tendo por base diversos factores.

Como certamente saberá, a obra do Arquitecto Gonçalo Byrne não se resume ao projecto de requalificação do centro histórico de Alcobaça. É vastíssima e digna de registo. Uma pesquisa rápida no Google permite-lhe ter essa noção. Mas se não o quiser fazer, destacamos, a título de exemplo, algumas das suas participações em concursos: o Centro Cultural de Belém, com o 2.º prémio; o edifício central da Universidade de Aveiro, com o 1.º prémio; o grande espaço coberto para assembleias, no Santuário de Fátima, com o 2.º prémio; e o Parque Urbano Forlanni, na cidade italiana de Milão, com o 1.º prémio.

Porém, a intenção do Região de Leiria não é premiar a obra. Nem tão pouco, como refere na sua mensagem, “um projecto e um processo” em concreto. A intenção foi distinguir o homem e, nesse sentido, a nossa convicção é de que, enquanto profissional, Gonçalo Byrne nunca relegou para um plano secundário a responsabilidade cívica e cultural dos seus projectos de arquitectura. Nunca se furtou ao debate de ideias, nem virou as costas às divergências que as suas intervenções suscitaram. Para o Região de Leiria, essa é uma razão maior para lhe atribuir um prémio.

Foi o cunho cívico da obra de Gonçalo Byrne e o seu mérito profissional, académico e humanístico que levaram a Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa a atribuir-lhe as insígnias de doutor honoris causa e que estiveram na origem da decisão do Presidente da República de o agraciar com a Cruz de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. A estes aspectos também o Região de Leiria não fechou os olhos.

Acresce a todos estes factores, o facto de o Arquitecto Gonçalo Byrne ser natural de Alcobaça. Como sabe, os Troféus Afonso Lopes Vieira visam distinguir pessoas e instituições da nossa região.

Quanto ao comentário que tece sobre o facto de ter sido o Dr. Gonçalves Sapinho a entregar o troféu, o seu raciocínio vai longe de mais. Na verdade, foi o Sr. Presidente da Câmara que entregou o prémio pela simples razão de que Gonçalo Byrne é natural de Alcobaça.

O Região de Leiria recebe de bom grado todas as observações que os seus leitores entenderem fazer, mas não pode deixar passar em branco afirmações que não correspondam à verdade. Quando o Sr. Miguel Silvestre lamenta “profundamente” que o nosso jornal “se tenha associado a esta forma de estar na gestão pública” está a fazer um juízo errado, não só do propósito dos Troféus Afonso Lopes Vieira, como também das intenções de quem seleccionou os premiados.

Em ambos os aspectos esperamos, sinceramente, que esta mensagem o possa elucidar. Continuamos ao dispor para todos os esclarecimentos de que necessitar.

Com os melhores cumprimentos


Patrícia Duarte

Departamento de Marketing
Sojormedia, SA"

sexta-feira, junho 02, 2006

Byrne ganha um Prémio

O tema é realmente inesgotável! Dando continuidade aos comentários que estão no post anterior, gostava de realçar este facto extraordinário, que se aproxima da provocação arrogante. Gonçalo Byrne, arquitecto de renome e membro da fiel guarda de elites (conceito que está a fazer escola junto de Gonçalves Sapinho), ganhou o prémio de personalidade do ano da gala do jornal Região de Leiria!! Justificação: projecto de requalificação da área envolvente ao mosteiro! A entrega do galardão foi feita pelo próprio presidente da Câmara de Alcobaça, curioso... A cerimónia foi no cine-teatro de Alcobaça... mais curioso ainda. Tudo ajuda a credibilizar a entrega do prémio e não suscita nenhumas dúvidas quanto à sua credibilidade.
Já agora.... quanto custou a cerimónia ao jornal Região de Leiria? ou melhor... à CMA? Certamente dirão que foi serviço público ou então nem se dão ao trabalho de responder porque aquilo que interessa é a posição do Pedro Abrunhosa, ilustre alcobacense, figura que frequenta e usufruiu da cidade como qualquer outro alcobacense. Quase tão ilustre como o outro "alcobacense" galardoado! Com elites destas...

sexta-feira, maio 19, 2006

E dura, dura...

Gonçalo Byrne continua em grande forma depois do sucesso da requalificação da envolvente do nosso Mosteiro, agora estalou a polémica com o seu projecto para o Largo Barão Quintela. Byrne volta a fazer um projecto ao seu estilo... Num jardim romântico oferecido à cidade por uma dos seus mais ilustres habitantes da cidade de Lisboa do séc. XIX, Byrne vai deslocar a estátua de Eça de Queiroz, fazer uma praça à semelhança da nossa D. Afonso Henriques e colocar um parque subterrâneo a 50 m do actual parque do Camões. Um local com uma mística tão especial irá ser desmembrado ao gosto de um executivo autárquico e de um "arquitecto de renome". Mas as espantosas semelhanças com Alcobaça não terminam aqui, há ainda a posição do IPPAR. Depois deste organismo ter emitido sucessivos pareceres contra anteriores projectos, qual foi a alternativa do promotor para garantir aprovação? Chamar um arquitecto de renome... Gonçalo Byrne, pois claro. Feito um novo projecto aprovação garantida!! Apetece-me dizer que é surreal, mas é a nossa realidade, aquela que vivemos todos os dias.
Mais uma vez, um coro de anónimos, ao qual aderi em texto neste blog e imprensa local no auge da polémica do Rossio de Alcobaça, e uma colectânea de académicos são desvalorizados por um executivo eleito e por um arquitecto escolhido... e mais não digo. Entre as pessoas que se manifestaram constam Raquel Henriques da Silva ou Vítor Serrão, mas esses são historiadores, não políticos. No entanto, pode haver uma centelha de esperança, pois ao que parece Paula Teixeira da Cruz, está contra esta posição do seu executivo, que segue um erro que vem de 2003. Lá vamos nós ouvir a desculpa dos "direitos adquiridos" novamente...
Mas as polémicas Byrnescas continuam. Santana Lopes quando chegou à Câmara Municipal de Lisboa uma das primeiras coisas que fez foi chamar um "arquitecto de renome" para um projecto para a área da Ajuda e seu Palácio. Quem foi o técnico de renome? Gonçalo Byrne. Uma das vertentes desse mesmo projecto é construir aquilo que nunca foi construído no palácio... uma ala inteira. Num país que se acotovela para arranjar fundos para recuperar património histórico-cultural em ruínas, que megalomania é esta de ir terminar um monumento que não foi concluído precisamente porque não haveria dinheiro?! O que virá a seguir? As Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha, as torres sineiras do Santuário Senhor Jesus da Pedra em Óbidos??
Quando é que Portugal assume a sua dimensão e condição como uma vantagem e não com o complexo de inferioridade que faz da megalomania a única alternativa?

sexta-feira, março 31, 2006

Sucedem-se os acidentes

Mais uma vez aconteceu um acidente no Rossio requalificado. Desta vez foi uma turista espanhola que caiu do parapeito em que se transformou o passeio da Rua D. Pedro V. Um grupo de pessoas, num espaço exíguo, uma conversa, uma distração, um acidente grave. Ficámos também a saber que a ambulância demorou bastante tempo a chegar ao local, em virtude das obras no acesso à rua, mas principalmente por esse quadro surrealista que são esplanadas no meio da estrada. Lamentável.
Há pouco tempo, para grande espanto pessoal, li, no jornal mais panfletário das virtudes desta requalificação, um artigo sobre a falta de segurança da Praça D. Afonso Henriques. Ao que parece, o motivo de tão solícita alteração editorial, terá sido um proto-acidente da neta do director do jornal. Felizmente não o teve, mas quando tantos alertavam (mais do que criticavam) para a segurança da obra, outros entretinham-se em torpedear acusações de resistência ao progresso e assoberbavam de adjectivos o projecto e o executivo.
Num dos meus últimos artigos sobre as obras alertava para a necessidade de a Câmara Municipal de Alcobaça ter de lançar um programa de gestão de danos. O mal, na minha opinião, está feito, resta, então, minimizar os seus impactos. Como se faz? Analisando descomplexadamente, admitindo erros e corrigindo-os. Se para tal for necessário substituir materiais, eliminar barreiras arquitectónicas, rever estratégias de circulção, então isso terá de ser feito.
Se tal acontecer garanto que não tecerei um comentário criticando as posições anteriores,pelo contrário, serei o primeiro a congratular o poder autárquico pela humildade demonstrada. Infelizmente não tenho muita convivcção nesta hipótese...

P.S. Volto a deixar a minha apreensão com o enterramento do tanque de mergulho da fonte junto à ala Sul, que vai ficar ao nível do solo. Onde brincam ou circulam crianças os cuidados devem ser redobrados.

domingo, setembro 04, 2005

A polémica saudável continua

Comentário de Pedro Cintra

“Para aqueles que sempre olharam para o Mosteiro, o que vêem hoje é uma fachada sem proporção, soterrada, uma escadaria anulada, uma adulteração de prioridades. Com esta praça a fachada do Mosteiro à sua construção barroca não teria esta configuração, as cotas dos terrenos seriam rebaixadas (solução mais que provável) ou então teríamos uma fachada de maior dimensão do que a actual."Pediu para rebater apenas um dos seus argumentos. Não o pretendo fazer. Apenas escolhi esta sua afirmação para tecer algumas considerações que o possam elucidar.Em primeiro lugar o Rossio nunca foi uma praça. A sua origem resulta de um espaço sobrante entre a Abadia e a Vila, aquilo que o arquitecto Gil Moreira classificou de "terra de ninguém". Daí que o anterior desenho do Rossio, acentuando uma axialidade da fachada do mosteiro com o seu espaço fronteiro, fosse a procura de uma regra geométrica artificial, pelo facto de negar a história e o património que este espaço "carregava": a sua relação com a orografia(relevo do terreno) e a hidrografia (a proximidade dos rios).O trabalho de Byrne para o Rossio assenta sobre estas prerrogativas.Em relação à fachada barroca da Igreja do Mosteiro e às suas proporções, lamento desiludi-lo mas, aquando da sua construção, as cotas do terreno eram ainda mais altas. As escadas de acesso à Igreja tinham originalmente apenas um lanço(para sul), um lanço e dois degraus (para poente), e um lanço e 4 degraus (para norte). O rebaixamento de cotas foi feito para aumentar(?) uma monumentalidade (que o Mosteiro sempre tivera) aquando da visita da Rainha de Inglaterra ao nosso País (e a Alcobaça).Daí que também não compreenda tanto alarido por caso do encobrimento de uns degraus que, efectivamente, nunca existiram.Relativamente ao comentário de Dora Mendes também apenas dois reparos:
1. o sistema hidráulico a juzante do Mosteiro encontra-se apto a funcionar devido, precisamente a estas obras. Foi desobstruído e reposto.
2. o muro que o Miguel considera um "capricho" do arquitecto corresponde a uma correcção histórica, se assim posso dizer.Por ali passava a cerca do Mosteiro e posteriormente ali foram edificadas algumas construções que delimitavam o agora Largo D. Afonso Henriques do espaço do actual Rossio. Foi demolida em 1840 por deliberação camarária o que veio a permitir passagem da EN1 mesmo em frente ao Mosteiro. Com este muro "caprichoso" volta, a distinguir-se estes dois espaços, valorizando-se precisamente o "bebedouro" como se lhe refere a colega de blog Dora Mendes, permitindo que este espaço volte a ser, como outrora foi denominado, o Largo do Chafariz.Esclareço também que os meus comentários não assentam em questões de gosto.Apesar de considerar que o gosto se discute...Um abraço.”



Respondendo aos seus argumentos Pedro devo dizer a título de preâmbulo que me parece que as nossas divergências quanto ao processo e ao seu resultado só poderão ser debatidas à mesa de um qualquer café, com uma longa tertúlia!
No entanto não posso deixar de contra-argumentar... Tenho ouvido todos os defensores do projecto utilizarem o argumento, que o Pedro também invoca, de que o “Rossio nunca foi uma Praça” e utilizando uma expressão do arquitecto Gil Moreira, “terra de ninguém”, para defender essa alegada continuidade histórica.
Primeiro o nome do artigo do arquitecto Gil Moreira onde essa expressão é utilizada é o seguinte: “Rossio de Alcobaça. Praça ou terra de ninguém?”. Atente no pormenor da interrogação. Logo na introdução do artigo o autor refere: “O Rossio, antigo terreiro fronteiro aos estabelecimentos monacais, embora incluído dentro da área antiga cerca (até para fácil acesso às margens do Rio Baça) era uma espécie de terra de ninguém, pois não existindo à partida núcleo urbano, também não seria habitualmente frequentado pelos monges, cuja rotina diária se desenrolava no interior da grande massa edificada.”
O projecto anterior do Rossio padecia realmente da acentuada “axialidade da fachada do Mosteiro” por isso nunca o defendi, por isso também queria a mudança, e me entusiasmei com a possibilidade de uma requalificação séria. Mas aquilo que anteriormente o Mosteiro possuía era a vivência cruzada de praça, onde os locais no seu quotidiano se misturavam com turistas. Neste momento no Rossio somos todos turistas.
Não se pode afirmar que o Rossio nunca foi uma praça.
Sabia que o arquitecto Gonçalo Byrne manifestou o seu espanto de desconhecimento quando lhe avançaram uma explicação para o facto do Rossio, durante tantos anos ter sido em saibro ou terra e ter a configuração que lhe conhecemos? Dizia o amigo que com ele falou que o Rossio era um espaço de treinos militares das milícias locais, que ali faziam os seus exercícios duas vezes por ano! O desconhecimento histórico do arquitecto é gritante e indesculpável para alguém que joga permanente com o seu passado no Mosteiro e em Alcobaça como factor de credibilização.
O Pedro refere ainda a questão da escadaria e da fachada. Escolheu o parágrafo aparentemente menos factual do meu texto, o que considero de engenhosa acutilância! No entanto quando escreveu a descrição da escadaria (sinceramente desconheço a fonte de onde a retirou) pergunto se conhece a seguinte: “a sua forma [fachada] é a seguinte: vindo de fora a entrar na igreja se oferece primeiro um átrio descoberto alto e quadrado, chamado vulgarmente patim com três faces e três entradas (...) sobem a ele por três escadas metidas no corpo do mesmo átrio; a da face principal (...) é largo 52 palmos e tem 18 degraus (...) as outras duas têm igual largura e altura e estão uma a norte, a outra a Sul” (SANTOS, Frei Manoel dos. Descrição do Real Mosteiro de Alcobaça. 1716, p. 33). Fica assim constatado que a leitura da fachada e da escadaria não é tão linear como apresentou. A escadaria era igual em todas as suas faces, mesmo com a inclinação do terreno. Apesar disso mais uma vez afirmo que a questão dos degraus está longe de ser o problema que mais me incomoda. O mesmo não posso dizer da leitura da fachada. Pergunto ao Pedro se a anulação da escadaria principal, do acesso principal ao Mosteiro, também foi uma “recolocação histórica”?
Em relação ao desnivelamento do terreno terá o arquitecto dado a devida atenção a estas palavras: “A parte do terreno mais elevada [frente à Ala Sul] tencionavam os frades nivelar para que o edifício ficasse completamente simétrico. Sabemos isto por umas escavações onde apareceram os alicerces que indicavam essa futura obra” (NATIVIDADE, M. V.. O Mosteiro de Alcobaça. 1885, pp. 87-88)?
Já no séc. XIX e inícios de XX as cotas estavam mais baixas, existindo um número maior de degraus visíveis do que aqueles que refere. As cotas não podem então só ter sido alteradas quando da visita da rainha de Inglaterra. O que disse não é factual.
Em relação aos comentários ao comentário de Dora Mendes aproveito para o elucidar do seguinte:
O sistema hídrico do Mosteiro funciona quando o vir a funcionar, por mais garantias que me possa dar. Não foi desobstruído, foi parcialmente destruído e substituído por caixas de betão e tubagens. Mesmo que o seu fluxo seja respeitado não foi a sua integridade. Tenho fotografias que o demonstram. Desculpe Pedro, mas é verdade. O sistema tinha tudo para funcionar integralmente, assim a obra o tivesse projectado.
Não considero um “muro um capricho arquitectónico”, considero toda a obra. Aqui o Pedro referiu-se ao muro da praça D. Afonso Henriques, mas não era a esse que Dora Mendes se referia. Falava do Muro que acompanha o patim em frente da Ala Sul. A voluta que foi deslocada para assentar o muro caprichoso é o "dique para suster o saibro". Neste local nunca houve muro nenhum.
Já que fala na praça D. Afonso Henrique, gostava de perceber em que sondagem arqueológica se baseia então a construção desse muro que, como afirma, “corresponde a uma correcção histórica”, e que nos remete para a antiga cerca do Mosteiro. Seria mesmo ali, não seria mais no centro da praça? Pergunto apenas...
Quanto ao “bebedouro”... assim foi chamado porque era um chafariz que serviria para os animais matarem a sede. Que estranho essa valorização de um chafariz de fins tão pouco nobres e nada condicentes com a linguagem requintada da obra. Não terá ido esta recolocação histórica um pouco longe demais. Se o respeito e o conhecimento do património tivesse imperado este seria um chafariz que não teria sido elevado, pois agora apenas o animal homem lá chega, e a bica continuaria a ter a altura que tinha para encher um cântaro. Até os apoios que lá estavam para esse propósito foram retirados. Sabe que em tempos, à frente da bica, estavam colocados três pinos em pedra (que foram retirados para um dos arcos que ligam as duas praças) que tinham como função não permitir que os animais bebessem no espaço das águas potáveis. Aos animais pertenciam os espaços laterais. São pormenores, bem sei, mas têm muito da essência das peças e espaços. Estes poderiam ter sido utilizados para valorizar o largo do chafariz...
Já agora Pedro que me diz daquilo que foi feito à fonte da Ala Sul? Pessoalmente não me fascinava, mas também não me chocava, ao contrário do que agora está feito. Desmontar uma fonte e enterrar a sua última taça!? É bom que alguém pense no perigo que representa uma piscina com mais de um metro de profundidade, num espaço onde andarão crianças a brincar. Até me arrepio quando penso na gestão da segurança que não existe nesta obra...

Não gostaria que lhe parecesse arrogante, ma apesar de não ser arquitecto, procuro perceber as dinâmicas do património e do ambiente em que está inserido, mas para além disso sou um cidadão que quer acreditar nas instituições e nas pessoas. Não posso aceitar que se minta em tribunal, que se violem classificações, que se gastem milhões de euros em caprichos num país em crise. Não posso aceitar que as pessoas e o património não tenha sido o eixo desta intervenção. Estão aí as eleições e o actual executivo camarário quase de certeza ganhará, logo sentir-se-á legitimado para acreditar naquilo que fez. Eu penso de forma contrária.
Quanto mais procuramos reescrever a História, mais imperceptível esta se torna para futuras gerações. Por tudo isto aguardo com alguma ansiedade a publicação dos relatórios das sondagens e das escavações (?) arqueológias da obra.

P:S. Coloco este espaço à sua inteira disposição para algum texto que o Pedro queira aqui colocar, com o destaque que um comentário a um post não possui. Apenas pela extensão do meu comentário aqui o coloquei, acho que é de inteira justiça se quiser responder fazer-lhe o mesmo. Este é um espaço livre, de debate de ideias e princípios. Teria muito gosto. Está à disposição.

quinta-feira, agosto 11, 2005

A requalificação do Rossio

Da gestão da mudança à gestão de danos.
A gestão da mudança. Foi isso que falhou em toda a linha em todos os projectos de requalificação da envolvente à fachada do Mosteiro de Alcobaça. Digo projectos, pois ainda hoje espero uma maqueta com o projecto definitivo. Em todas as apresentações públicas até à exposição permanente no Turismo, aquilo que vi foi a mesma maqueta que nos foi apresentada na primeira apresentação pública no Cine-Teatro.
Todo o processo foi confrangedor no conteúdo e arrogante na forma.
A apresentação pública das primeiras ideias não ponderou as críticas que surgiram, encarou-as como provenientes de velhos do restelo, assistimos a arquitectos a fazer de políticos e políticos a fazer de arquitectos. Ficámos a saber recentemente por uma notícia televisiva, na voz do Vice-presidente da Câmara Municipal que se está a estudar a questão dos degraus enterrados da escadaria do Mosteiro. A seguir virá o arquitecto Gonçalo Byrne explicar qual a política para o desenvolvimento económico do concelho a partir da obra de requalificação do Rossio. Porque não fala o gabinete responsável por esta obra? Será essa uma pesada factura para quem recebeu uma obra desta dimensão sem sequer preencher os formulários de um concurso público?
Foi pena a reportagem da SIC não ter confrontado a Câmara Municipal com as promessas de que as cotas dos terrenos do Rossio não seriam alteradas, que a imposição legal de área non aedificandi não iria ser desrespeitada, que o trânsito não mais iria circular, que a obra seria feita de forma faseada, etc.
Num tom emotivo, porque creio que tenho esse direito, custa-me ver o monumento que mais admiro no Mundo ser devassado na sua integridade por uma obra que falha naquilo que é mais essencial: no respeito que lhe deveria mostrar. Para aqueles que sempre olharam para o Mosteiro, o que vêem hoje é uma fachada sem proporção, soterrada, uma escadaria anulada, uma adulteração de prioridades. Com esta praça a fachada do Mosteiro à sua construção barroca não teria esta configuração, as cotas dos terrenos seriam rebaixadas (solução mais que provável) ou então teríamos uma fachada de maior dimensão do que a actual.
O ambiente do Rossio é hoje marcado pelo edifício dos Correios, por uma estrada que foge do Mosteiro, por uma barreira de àrvores e pinos de latão e por um carrocel de níveis e desníveis que adulteram o recato que a observação do monumento requer. A banalização atinge o ofensivo com os propalados degraus “à Pompeia”, com calhas pluviais que partem bem do centro dos diferentes lanços de escada e com a monumental entrada para a Ala Sul, que sempre foi dos espaços de maior humildade do Mosteiro, mas que assiste no Presente à sua recolocação histórica como obra maior do ambiente construído cisterciense. Bem ao lado, desta monumental Ala Sul, foi “simplificada” uma fonte precisamente porque era demasiado… monumental.
Toda a obra impregna desta relação ditatorial que alguns arquitectos e outros protagonistas cultivam com o Passado, fazendo tábua rasa do existente e colocando a sua criação como dogma inabalável. Por todos os motivos, Alcobaça deveria ter tido a maior das preocupações com uma obra desta envergadura. Para aqueles que acreditam que nos irá colocar nos píncaros das intervenções em contextos históricos, gostaria que quem tomasse decisões pelo menos conhecesse aquilo que se faz no exterior e que expressões como “Ambiente Construído” e “Ambiente Histórico” carregassem consigo o peso do conhecimento e da definição de políticas inovadoras que se geram em todos os países desenvolvidos. Uma coisa parece-me evidente, Simon Thurley, director do English Heritage e doutrinário destes conceitos, quando veio a Portugal, a convite do IPPAR, não veio a Alcobaça. Porque motivo? Não por demérito do monumento, certamente.
Poderemos falar de requalificação quando as pessoas não foram o centro de toda a intervenção?
Analisando friamente. As requalificações de sucesso em centros históricos foram aquelas que combateram a desertificação agindo em coordenação com os moradores, inclusivamente nas suas próprias habitações. Em Alcobaça nenhum projecto ou apoio foi desenvolvido para gerar mais e melhor habitação no centro histórico.
As requalificações em espaços públicos respondem no presente a questões fundamentais como a mobilidade das crianças e principalmente dos mais velhos. Neste momento temos um espaço público onde calhas de escoamento pluviais atravessam áreas pedonais, onde as cores e a tipologia dos materiais aumentam a temperatura ambiente e a intensidade da luz.
As requalificações assentam numa visão estratégica que coloca o território em consonância, numa visão uniforme e integrada. O que temos em Alcobaça, neste momento, são várias Alcobaças. A Alcobaça de Ferro e a Alcobaça de Falcão. São estes os arquitectos que verdadeiramente ditam as diferentes estéticas, que só revelam a evidência: ainda não existe uma estratégia urbana para a cidade. Não tenhamos ilusões, o “chique” não se impõe por decreto.
As requalificações obedecem a rigorosos estudos de impacto no ambiente a intervir, a nível económico, numa equação simples de custo/benefício. O que temos em Alcobaça é uma obra de mais de um milhão de contos, sem o parque de estacionamento que o próprio arquitecto considerava indispensável, e que responde apenas a um objectivo: o capricho do arquitecto.
A diferença entre boa e má arquitectura é revelada pela forma como ambas lidam com o tempo. A boa continua e valoriza-se, a outra torna-se expiatório de políticas erradas e obsoleta perante aqueles que dela devem beneficiar. Ambas serão sempre ícones, o problema são as diferentes devoções ou rejeições que suscitam.
Falhou a gestão da mudança. À Câmara Municipal, uma vez que o arquitecto Gonçalo Byrne à muito se demitiu, resta a gestão dos danos.
As decisões tomadas contrariam o que tem sido defendido internacionalmente sobre “Ambiente Histórico”, foram contra princípios fundadores da classificação do Mosteiro como Património Mundial. Decisões que contaram com a conivência de cidadãos, políticos e organismos que deveriam ser vigilantes para com um Património que tem resistido a todas as barreiras que o Tempo lhe tem colocado. Irá sobreviver também a esta, a questão é como vamos nós viver com ela? A fractura está criada…

terça-feira, março 01, 2005

Do Capricho da Arquitectura à arquitectura de Capricho

Estávamos no auge da polémica sobre o projecto de requalificação do Rossio de Alcobaça quando me ocorreu este título. Em grande medida por que correspondia a um paradoxo que me foi apresentado entre o Presente, simbolizado pelo projecto de Gonçalo Byrne e o Passado simbolizado na descoberta da figura de Azevedo Fortes e do seu trabalho na arquitectura, apesar da sua qualidade intrínseca como pensador e homem de erudição. Também por aqui passa uma das vertentes do paradoxo que apresento, a uma visão do espaço e do homem, baseada na compreensão de ambos, no estudo exaustivo, sobrepunha-se uma cultura do aleatório, irresponsável quanto aos anseios do homem, e da maior fragilidade no que concerne ao conhecimento contextual.
Em resumo, do capricho pela arquitectura passámos a uma arquitectura que satisfaz o capricho de arquitectos, empreiteiros e políticos. Uma tríade que brilha com dinheiros públicos, que oculta a sua incompetência com o fausto do nada.
Na primeira apresentação públicas do projecto de requalificação da área envolvente ao Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça pensei que iria assistir ao capricho da arquitectura. Gostei de exercícios que considerei eminentemente teóricos, pensei que se tratava de uma sessão de brainstorming público, em que o arquitecto abria a sua alma e soltava ideias, algumas delas irrealistas, como a inclinação de todo o largo do Rossio, que seriam depois trabalhadas e eventualmente abandonadas. Mantive a minha fé quando as primeiras perguntas da assistência foram lançadas, todas elas particularmente incisivas, não ouvi as respostas necessárias do projectista. Seria falta de preparação ou apenas uma estratégia de apresentação do projecto?
Na segunda e nas restantes apresentações percebi que era falta de preparação, pois nunca foram respondidas cabalmente e ainda hoje, com as constantes alterações do projecto, não creio que alguém possa explicar convenientemente. Do trânsito à arte urbana, do impacto no comércio ao turismo, tudo ficou por dizer.
No meio de tudo isto a incongruência maior, o organismo do Estado que tutela o nosso património classificado foi emitindo pareceres que alertavam para a sensibilidade que o projecto requeria, para a oportunidade histórica que uma alteração tão profunda poderia permitir, nomeadamente no domínio da arqueologia. A tudo isso respondeu o IPPAR, depois das obras terem avançado e estando sujeitas a uma providência cautelar solicitada por um movimento civil, com a sua habitual coerência. De repente, todos os seus alertas deixaram de fazer sentido e a obra cumpria todos os requisitos respeitantes a um edifício património mundial. Desafio o IPPAR a revelar ambos os pareceres de maneira a que todos possamos fazer o nosso juízo. Porque não estão os pareceres desse organismo disponíveis para consulta na Internet? Seria mais transparente? Para adensar a história, dizemos ainda, que o último parecer que chegou à Câmara Municipal de Alcobaça, na véspera da decisiva sessão em tribunal, era assinado por Flávio Lopes, o mesmo senhor que muito recentemente em comentários para a imprensa referia que o IPPAR não poderia ter duas versões sobre o mesmo assunto. Falava nessa altura relativamente à provável destruição de 180 metros do Aqueduto das Livres de Lisboa, cerceando a sua integridade e colocando em causa uma eventual candidatura a Património da Humanidade. O aqueduto que resistiu ao sismo está agora em risco uma vez que dará lugar a um viaduto que poderia passar em túnel mas mais uma vez há uma inversão de valores e prioridades.
Não nos podemos esquecer que o IPPAR não pode ter duas posições sobre o mesmo assunto.
Para terminar sobre a coerência desta entidade, e para além dos casos anteriores, o que dizer do recente projecto de Gonçalo Byrne para o Largo Barão Quintela, em Lisboa. O IPPAR está à beira de aprovar um projecto que merece a reprovação de todos, pois vai colocar um parque de estacionamento, numa praça muito pequena, a 30 metros do parque do Camões, destruir o jardim romântico e mudar a estátua de Eça de Queirós da sua localização, para além da colocação das esplanadas. As semelhanças com Alcobaça são evidentes!
Em Alcobaça, Byrne e o IPPAR foram responsáveis pela destruição dos Jardins frontais ao Mosteiro, retiraram uma escultura de homenagem pública a Vieira Natividade, que fora colocada defronte da casa deste insigne alcobacense. Será desterrada para um beco, em nome da unidade estética do projecto Byrnesco. Aposto que em Lisboa como em Alcobaça, a praça também será em socalcos como essa notável transformação que está ocorrer na praça Afonso Henriques, em Alcobaça.
Fica provado a todos os autarcas de Portugal que, caso possuam património classificado no seu concelho e projectos de difícil aprovação pelo IPPAR, a solução é chamar o arquitecto Gonçalo Byrne. Para o IPPAR não aprovar um projecto da sua autoria seria colocar tudo aquilo que fez para essa entidade. No caso do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, tudo o que foi feito, foi mal feito e desbaratinando doses maciças de fundos públicos. Três casos:
Loja do Mosteiro – encerrada por um ataque de fungos que levou à sua deterioração precoce. Todos gostaríamos de saber o seu orçamento…
Ala Sul do Mosteiro – lajeada a mármore grego (?) e paredes e rebocos atacados por salitre, soluções internas muito criticáveis como o completo desmantelamento do interior, permitindo as mais insipientes interpretações na altura da reconstrução.
Área envolvente ao Mosteiro – sucessão de contradições quanto ao pavimento a utilizar (saibro, laje, calçada); o parque de estacionamento era fundamental para o projecto, não vai ser feito, mas as obras continuaram; quanto ás árvores a colocar; quanto à violação de terrenos em área classificada; quanto aos jardins existentes, da mesma forma que cortou, nas traseiras da Ala Sul, uma árvore de grande porte e com umas dezenas de anos, para colocar uma escada que nunca foi construída; quanto ao aproveitamento público dos espaços, anulando uma praça ao colocá-la em patamares inclinados que inviabilizará o seu usufruto actual em nome de uma suposta ligação com um espaço interior do Mosteiro que, como sabemos, se encontra permanentemente fechado.
O que dizer então das fundações que estão a ser colocadas em frente do Mosteiro alegadamente para suportar os camiões dos grandes espectáculos que ali se irão realizar. Então não passou no Rossio a estrada nacional Lisboa-Porto e actualmente a nacional 8? Sempre passaram camiões, nunca aconteceu o abatimento. Já agora então o trânsito não é para ser cortado, qual é a necessidade de reforçar uma via pedonal?
Arquitectura de capricho ou capricho da arquitectura? Eu opto pela primeira...