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quarta-feira, março 28, 2007

A Apresentação do Armazém das Artes

A apresentação do Armazém das Artes foi um encontro emocionante dos alcobacenses com o novo espaço de referência cultural da cidade. Surpresa e entusiasmo foram sentimentos fortes de quem visitou o espaço e participou na comunhão gerada pelas actuações dos artistas, pela vivência do espaço e nas conversas que sempre surgem nestas ocasiões.
Fica também o reflexo de um acontecimento aberto, com a formalidade essencial, mas com uma liberdade muito maior. Esse é o espírito do fundador José Aurélio e esse será também o espírito da fundação, certamente. Para já fica a promessa para todos os que viram nascer o Armazém que vão poder continuar a assistir ao seu crescimento e estar presente em todos os momentos da vida do Armazém das Artes. Para Maio está prevista a inauguração da colecção de escultura. Fica a expectativa de como irá reagir o edifício (também ele escultura) com as obras do Mestre!
A presença de algumas individualidades representa o reconhecimento da dimensão de José Aurélio, naturalmente, mas também um sinal de que o país olha para este projecto com uma expectativa crescente, assim a cidade também o encare e nele participe.

Alcobaça passou a estar dotada de um espaço cultural fantástico e que mereceu o repicar dos sinos do Mosteiro (não sei se propositado! De qualquer forma, parabéns ao Dr. Rui Rasquilho!). O AA será um espaço complementar ao Mosteiro e, em conjunto, prometem ser uma experiência cultural única. É disto que se alimenta a Cultura e, já agora, o turismo…

Parabéns ao Armazém das Artes e à coragem de José Aurélio

quinta-feira, março 15, 2007

Armazém das Artes com espaço na net

Trago uma boa notícia. A Fundação Armazém das Artes situada bem no centro de Alcobaça já tem disponível o seu espaço na net. Todos os curiosos sobre o que é, e o que vai ser, este espaço ímpar na cultura regional podem consultar toda a informação e admirarem a galeria de imagens. Ficarão também a saber que a Apresentação pública do edifício acontecerá a 24 de Março.
Garanto que só pela arquitectura do edifício vale a visita!
P.S. A todos os "agitadores" da blogosfera peço que ajudem a divulgar o projecto que nasceu de um sonho do escultor José Aurélio e que, neste momento, já tem forma. O envolvimento da comunidade também passa pelo nosso empurrão.

www.armazemdasartes.pt

quarta-feira, maio 18, 2005

Imaginários de Museus e Museus Imaginários

Chegámos a 18 de Maio, logo temos de falar um pouco de Museus, uma vez que hoje é o seu dia internacional. Voltamos à prática, cada vez mais generalizada, em Portugal de reacção às efemérides. A culpa não é só dos responsáveis do sector, mas também do público que nestas datas baixa um pouco as suas defesas e permite algumas investidas.
A realidade nacional dos Museus é paradigmática do estado da Cultura em Portugal, com o organismo de tutela (Instituto Portugês de Museus) a ser alvo de cortes orçamentais que chegaram a atingir os 20%, com modelos de gestão presos a legislação antiquada e sem recursos humanos, tornando o panorama confrangedor. Portugal é o país onde o Museu Nacional de Arte Antiga, o seu museu mais importante, chegou a ponderar encerrar as suas portas devido às férias dos funcionários em plena época estival! Imaginem encerrar o Prado, ou o Louvre! Seria inconcebível. Alguns dos caminhos que entendo como necessários para resolver esta questão já aqui apresentei num artigo anterior sobre o financiamento cultural.
Voltando ao caso na ordem do dia, para além da dificuldade que vai sendo a manutenção dos Museus, existem ainda outras dificuldades prévias: a conceptualização e a abertura. Recordo-me sempre, a este respeito, do caso de estudo que é Alcobaça. Não faltam projectos, vozes críticas (justas e injustas) e principalmente, não falta potencialidade.
Alcobaça, neste momento, não tem um Museu. Um museu que cumpra com os requisitos do levantamento o Observatório das Actividades Culturais. Há museus sem colecção, colecções sem museu, museus sem pessoal, museus sem programa, mas todos combinam numa coisa: alheamento dos públicos. Senão atentem nestes exemplos:
- O Mosteiro de Santa Maria possui acervo, mas não tem museu, apesar de ser uma ambição oitocentista de Alcobaça e estar legalmente criado desde a década de 80 do séc. XX;
- O Museu Nacional do Vinho, em virtude do desinvestimento e de um proprietário que se recusa a entender com a Câmara Municipal de Alcobaça vai definhando e perdendo o seu pioneirismo. Cairá no subalternismo face a projectos que nascem e se desenvolvem, não muito longe, por exemplo no Cartaxo;
- O Museu dos Coutos de Alcobaça é um projecto embrionário que espero que consiga atingir a maioridade, mas que creio ter um paradoxo que não vi ninguém esclarecer. Como pode um Museu dos Coutos de Alcobaça existir sem o Mosteiro? Para além disso o projecto parece-me pouco pragmático apostando numa rede de equipamentos que cria desafios, quanto aos recursos humanos e financeiros que lhe são inerentes. Não creio que exista nenhum estudo económico que justifique esta opção, por mais coerente que possa ser do ponto de vista museográfico. As interrogações que deixo não são nada quando comparadas com as que tenho em relação ao caso de estudo da não-museologia alcobacense: a casa-museu Vieira Natividade. Creio que o recente episódio da tentativa de deslocalização do monumento que lhe está coligado é a caricatura perfeita.
Continuam a faltar em Alcobaça projectos-âncora que funcionem como forma de preservação patrimonial e difusão cultural. O Cine-Teatro foi um passo decisivo nessa direcção, assim como a Biblioteca Municipal, mas ainda falta um Arquivo Municipal (prioridade administrativa e cultural absoluta) e um bom espaço museológico/exposições.
Relativamente a este último, dos vários possíveis, existem dois modelos que gostaria de destacar:
- Tradicional: um espaço, uma colecção permanente temática, espaço para exposições temporárias e reservas, com financiamento público, quase em exclusivo. Teria como principais vantagens a possibilidade de um trabalho mais duradouro, no entanto é um modelo menos flexível às novas realidades da gestão cultural, que requerem equipamentos polivalentes e/ou, quando há dinheiro, espaços mais específicos para trabalho localizado.
- Simbiose. Alcobaça carece de um espaço livre para exposições, com dimensão para receber Arte contemporânea, afastada da nossa programação cultural, à excepção das artes performativas. Nesse âmbito a existência de um espaço que cumprisse com essa exigência seria uma vantagem significativa, em paralelo ou perpendicularmente seria possível articulá-lo com uma exposição sumária, mas representativa, de mais-valias de Alcobaça. A tónica na minha opinião seria a Faiança de Alcobaça e a cristalaria. Só faria sentido com a sinergia entre sector privado e municipal.
O espaço Alcobaça, à semelhança de um Welcome center, serviria para receber os visitantes e teria uma incidência no presente e futuro, com o passado integrado. Recorreria às novas tecnologias como veículo de passar a mensagem, através de projecções de filmes, realidade virtual, reconstituições 3D, explorando as potencialidades comunicacionais das novas tecnologias. Não será esta a melhor forma de agarrarmos os turistas “volantes” que nos visitam? Aliciar, não impor. O turista não deve ser obrigado a andar a pé ou de carro, a visitar qualquer coisa que se queira vender. O turista, porque paga e é efémero, quer conhecimento simples, directo e liberdade para a sua vivência do local onde se encontra. O “Turismo de Experiências” que menciono é uma realidade emergente que procura responder à massificação da oferta turística. As relações humanas, afectivas, reveladoras, o conhecimento intenso dos locais é hoje crucial para o turista que, mais do que descansar, quer descobrir. Se é verdade que todos os locais têm a sua magia própria, então Alcobaça tem de encontrar a sua, antes que seja tarde demais. Aquela que poderia ser a mais-valia, neste domínio, o seu Ambiente Histórico” já não existe mais.
Regressando ao Welcome Center, a concepção do espaço seria uma responsabilidade municipal enquanto a gestão quotidiana pertenceria às empresas participantes no projecto com ou sem a Câmara Municipal no consórcio. Neste projecto seria estrutural a exploração de uma loja, galeria, cafetaria/restaurante, que teriam como objectivos, a rentabilidade económica do projecto e o prestígio das empresas e da cidade.
No que concerne à localização também temos várias possibilidades:
- Clássica: Mosteiro de Alcobaça. É bom não esquecer que o IPPAR vai constituir uma equipa para a execução de um Plano Director para o Mosteiro. Alcobaça tem de participar, não se pode alhear;
- Actual Mercado Municipal. Caso a solução Mosteiro se revele dificilmente exequível por vicissitudes várias, esta poderia ser a altenativa ideal, pela centralidade do espaço, as suas características, a qualidade arquitectónica do projecto e especialmente porque está junto à paragem dos autocarros turísticos. No entanto, a deslocalização do mercado deve ser bem pensada de forma a que não se intensifique a desertificação do centro da cidade e se quebra aquele que vai sendo o único elo de ligação da sede com o concelho;
- Antiga fábrica da Olaria: seria uma forma de preservar, pelo menos uma parte, do património edificado e principalmente da memória histórica que ainda perdura. A localização é favorável, à entrada ou saída da cidade e junto ao rio Alcôa;
- MercoAlcobaça: a não-solução. Aparentemente tem tudo para resultar. Entrada da cidade para quem vem pela A8, estacionamento, espaço amplo, mas está distanciado da cidade, do centro. Como seria depois? Visitavam o espaço, voltavam a entrar no autocarro ao centro da cidade, a partir desse momento estaria quebrada a relação entre o virtual do Welcome Center e a realidade da cidade.
Colocadas estas considerações e face à desafectação da Ala Norte e ao imenso espaço histórico devoluto, a solução Mosteiro parece-me a mais interessante. Para além do mais Alcobaça necessita, com urgência, de encontrar mais-valias para o seu descaracterizado centro, por sucessivas empreitadas.
As ideias que apresento fogem um pouco à doutrina geralmente instituída, porque procura a partilha de recursos e da gestão, em moldes pouco convencionais no sector cultural. Encara a Cultura como conhecimento, mas também como mais-valia económica. Procura ser Cultura Sustentável. Quanto mais não seja, fica o meu contributo para o imaginário dos Museus de Alcobaça.