terça-feira, julho 25, 2006

Alexandre Delgado

Soube recentemente, apesar de não ter lido a notícia, de que Alexandre Delgado estaria de saída do cargo de programador do Cistermúsica. Desconheço os motivos, mas também não é sobre isso que vos gostaria de falar. Neste momento queria só felicitá-lo pelo trabalho que desenvolveu, a todos os títulos notável. Fica uma pesada herança, daquelas que só se sentem quando o que foi feito valeu a pena.
Alexandre Delgado não é só um intérprete, um músico, alia essa qualidade a outras como a capacidade de investigação histórica, os conhecimentos do meio e, além de tudo isso, é um comunicador nato. Alguém que se sente bem falando para uma plateia na Benedita ou na Gulbenkian. A propósito da Benedita não me esqueço da lição pedagógica (nunca ofensiva ou arrogante) num concerto no Centro Cultural, quando o público batia palmas sempre que mudava de Andamento. No final da obra, levantou-se e na sua forma expressiva disse qualquer coisa como isto… no mundo da música, actualmente existe uma convenção relativa a que não se deve bater palmas entre os andamentos (já tinha explicado o que eram!), mas se o quiserem fazer podem fazê-lo porque nem sempre foi assim. Noutras alturas as pessoas chegavam a bater palmas a meio da interpretação bastava que tivessem gostado da interpretação de um solista por exemplo. Já agora a próxima obra tem cinco andamentos…
O concerto continuou e o tempo entre os andamentos foi passado no mais absoluto silêncio!
Cada caderno do Cistermúsica é um manual de introdução à música, mas ao mesmo tempo uma fonte para todos aqueles que já conhecem alguma coisa. É um festival com uma programação de elite, mas que atinge públicos que noutras circunstâncias se sentiriam desfazados. O único reparo que aponto foi o facto do festival se estar a afastar de povoações como a Vestiaria, onde era claramente um evento com um impacto notável. Bem sei que o cine-teatro tem melhores condições, mas a difusão radial do festival era uma característica que seria importante não perder. Cós é a prova disso. Mas isto são factos de somenos importância no contexto deste post.
Sinceramente espero que não seja um ponto sem retorno e que exista alguma forma de Alexandre Delgado continuar a gerir o Cistermúsica. A Câmara Municipal demonstrou inteligência na sua contratação e por isso merece ser felicitada, pois ressuscitou um evento moribundo. À Câmara deixo o pedido que vá até onde lhe for possível para que o Cistermúsica continue a contar com Alexandre Delgado.

9 comentários:

José Alberto Vasco disse...

Caro Miguel: concordo praticamente com tudo o que escreveu. Contudo, surgiram alguns problemas no decorrer da última edição do festival, em termos do seu enquadramento como "serviço público". A qualidade do trabalho do Alexandre Delgado como director artístico é praticamente indiscutível, mas a verdade é que deveria haver uma reflexão sobre o futuro do festival, em termos da sua direcção executiva e programática. Não são os nomes nem as personalidades que estão em causa, mas sim o efectivo relacionamento do Cistermúsica com o seu público potencial.
Os nomes e a acção do Alexandre Delgado e do Rui Morais não estão em causa, mas deveriam ser consultadas outras personalidades locais, como o Manuel Campos ou o Fernando Serafim.

capeladodesterro disse...

Concordo José Alberto. Não fui por aí porque queria que a mensagem que ficasse é que a discussão deve incluir o Alexandre Delgado. O relacionamento com o público parece-me fundamental porque creio que tem vindo a ganhar peso a crítica de que a programação procura demasiado obras que inéditas ou raramente tocadas sem cuidar que algumas delas são de difícil audição... foram alguns músicos que mo disseram. Quanto ao envolvimento dos locais estou de acordo. Não me recordo de um concelho com tantos músicos de excelência. Ficam alguns dos meus conterrâneos: Jorge Trindade (Orquestra Sinfónica Portuguesa), Hugo Assunção (São Carlos), António Rosa (Orquestra Nacional do Porto), etc, etc.E há ainda uma nova vaga de músicos com os seus projectos como Ricardo Santos e o seu Quinteto de sopros AuventGard que por dois anos consecutivos foram 2.º prémio RDP e que acaba de ir estudar para uma das mais prestigiadas escolas em Madrid.
Lanço o debate... fico com a ideia de que este filão está a perder a importância que teve noutros tempos. Todos eles começaram antes de haver este Cistermúsica... não nos podemos esquecer das filarmónicas. Se calhar esse é o debate mais importante e parece-me que o José Alberto era a pessoa ideal para se lançar nessa empresa. Qual a prioridade neste momento? Ensino associativo, privado, Cistermúsica?
Abraço

José Alberto Vasco disse...

Olá Miguel! Todos somos "a pessoa ideal para nos lançarmos nesta empresa"... Estes assunto merece ser discutido e colocado em discussão a fundo e pela nossa Câmara Municipal, que não poderá viver eternamente "à pesca" neste âmbito e nestas questões... Todavia, penso que o principal de tudo, para já, é defender e consolidar o Cistermúsica. Ele é, para já e há alguns anos, o centro de toda esta questão. Com ou sem Rui Morais como director executivo... Com ou sem Alexandre Delgado como director artístico... Ninguém é eterno ou indiscutível neste âmbito. E o problema, nos últimos dois anos acentuou-se pelo facto de o festival ter perdido muito do seu público habitual. O que não se passou apenas pelo facto de se terem começado a cobrar as entradas nos concertos...
Quando refiro o Manuel Campos e o Fernando Serafim como pessoas a consultar ou como prováveis directores artísticos, faço-o pela experiência de um no campo da música clássica e da música romãntica e na do outro pela sua tarimba na música contemporânea... O festival não pode é continuar a apresentar espectáculos com menos de 50 pessoas na plateia ou com um piano em péssimo estado de manutenção. Esta questão é muito mais grave do que aquilo que à primeira vista possa parecer. Fico feliz pelo facto de o Miguel ter também vindo a terreiro nesta questão. Força!

capeladodesterro disse...

Estamos num momento melindroso no que se refere ao período que vivem as nossas filarmónicas. Naturalmente tal facto reflecte-se no ensino da música. Ainda vão despontando valores, mas estamos longe daquilo que foi o período dourado em que surgiram os nomes aventados em comentários anteriores.
Parece-me que está na altura de associações e câmara agarrarem nestes nomes, falarem com eles,e lançarem projectos que reconvertam este panorama. Será um panorama decadente ou apenas um mau período?
São precisos novos desafios para a música e seu ensino. Alcobaça precisa de vencer alguns estigmas... e que tal um festival de música, mas só na rua? Com novos valores, alunos de músicos de Alcobaça por exemplo. A música está a fechar-se em pequenas caixas, que são as colectividades e o cine-teatro.

José Alberto Vasco disse...

Pois é Miguel, este seu último comentário vem ao encontro daquilo que eu este ano escrevi no meu blogue, em comentário ao desenrolar do Cistermúsica, ou seja, o festival e a sua direcção artística fecharam-se sobre o seu próprio umbigo e afastaram-se de grande parte do público habitual do festival...

rui morais disse...

Caro Miguel,
acabei de fazer um texto relativamente longo acerca do seu post sobre o Alexandre Delgado, mas, infelizmente, não o consegui publicar.
Assim, não podendo neste momento, reproduzir tal texto, deixo-lhe aqui as ideias essenciais do mesmo:
1 - o seu post é o primeiro texto que faz justiça ao trabalho exemplar do Alexandre Delgado como Director Artístico do Cistermúsica
2 - o post é particularmente feliz na identificação das qualidades, muito raras de encontrar na mesma pessoa, do Alexandre Delgado, o que, obviamente, levanta um sério desafio para o senhor que se segue...
3 - a responsabilidade de convidar o director artístico do Cistermúsica é da Academia de Música de Alcobaça e não da Câmara Municipal no âmbito do protocolo estabelecido entre as duas entidades que confere aquela a direcção e a produção do festival (foi, aliás, já a Academia que escolheu o Alexandre Delgado)
4 - pelo que já ficou dito, percebe-se que, infelizmente, para o festival e para Alcobaça a decisão do Alexandre é definitiva devido, sobretudo, a razões de ordem profissional. Assim sendo, houve o cuidado de anunciar tal decisão logo a seguir ao fim do festival, para que existisse tempo para encontrar a melhor solução possível para o futuro do Cistermúsica
5 - estamos, pois, neste momento a reflectir sobre essa e outras matérias também contando com a opinião do Alexandre Delgado. Num cenário normal, ou seja, continuando a ser a Academia a primeira responsável pelo festival e eu próprio continuando como director executivo, o director artístico será conhecido em breve para que consigamos trabalhar atempadamente na simbólica 15ª edição do Cistermúsica.
6 - Finalmente, os comentários do José Alberto Vasco a este assunto na sequência de outros publicados no seu blog ( e as consequente respostas do Miguel), se bem que traduzem uma permanente reflexão sobre o festival que tanta falta faz, não são justos ou correctos, nuns casos, ou carecem de uma análise mais aprofundada, noutros casos. A essas questões me dedicarei brevemente, esperando contar com as vossas (Miguel e José Alberto) sugestões e críticas.

José Alberto Vasco disse...

Olá Rui! Que bom voltar a ver-te num debate bloguístico sobre o Cistermúsica! É claro que entre muitos de nós existem opiniões diferentes e diversificadas sobre o passado, o presente e o futuro do Cistermúsica. Contudo, o que é acima de tudo necessário é que o festival continue e se continue a engrandecer. E aí, penso que todos estamos a remar para o mesmo lado. Espero que venha mais gente para o barco nos próximos tempos!

capeladodesterro disse...

Viva Rui
Obrigado pelos esclarecimentos. São realmente da maior importância e mostram uma abertura que não é comum em Alcobaça(tinha de o dizer!).
Gostaria mesmo que o Cistermúsica se renovasse, talvez mesmo que se centalizasse novamente na música. Parece-me que a procura, legítima e racional, de incluir a dança, a poesia ou outros eventos, poderá retirar à música a preponderância que deveria possuir. Esta é uma "immpressão", algo empírica, mas que tenho sentido sempre que vejo o programa do Cistermúsica. Deixo à vossa consideração esta minha "impressão".
P.S. Neste processo e pegando nas palavras do Rui gostei da lisura com que todo o processo se desenrolou. Digno. Era isso que o trabalho desenvolvido merecia.

capeladodesterro disse...

A notícia esperava aconteceu e Alexandre Delgado vai continuar na direcção artística do Cistermúsica, mas em regime de parceria. Rui Morais e todos os envolvidos no processo merecem ser felicitados. Creio que agora é o momento ideial para dar um novo alento ao Cistermúsica, especialmente ao projecto de descentralização. Nem que para isso reservem os concertos de cariz mais pedagógico para grupos de jovens músicos.
Força