quarta-feira, agosto 31, 2005

Negativo

Rossio. A súmula de erros de gestão do projecto, de escolhas de materiais, de agressão a um espaço classificado, atingiu proporções inacreditáveis, com mentiras, calúnias e conivências indesculpáveis de organismos que deveriam zelar pelo Património (IPPAR e ADEPA à cabeça). Doeu muito e continuará a doer. O Mosteiro e a cidade merecia actores diferentes daqueles que perpetraram esta ópera-bufa, caprichosa e artificial.

6 comentários:

pedro cintra disse...

Gonçalo Byrne é só um dos mais conceituados arquitectos portugueses a par de um Siza Vieira ou de um Souto Moura.
Como arquitecto e principalmente como alcobacense, sinto-me orgulhoso por tão distinta e sensível intervenção na minha cidade.
E sublinho "sensível".
Uma sensibilidade estética, arquitectónica, urbana, patrimonial e principalmente histórica.
Convém ainda não esquecer que para além do arquitecto Byrne ser alcobacense, já estuda este território de uma forma mais próxima há cerca de 15 anos, quando começou a sua intervenção no Mosteiro de Alcobaça.

dora mendes disse...

Infelizmente não posso concordar com essas palavras. Não discuto a qualidade do trabalho do arquitecto Gonçalo Byrne a outros níveis, mas perante a obra em questão, as suas palavras só me levam a acreditar que não estamos a referir-nos ao mesmo mosteiro! Sensivel intervenção patrimonial? Deixe-me contar-lhe do bebedouro em frente à praça, na rua D. Pedro V, que foi retirado, ligeiramente desbastado de modo a ficar mais pequeno, e novamente colocado. Ou a voluta da escadaria da ala norte, removida, ligeiramente reduzida, em prol de um muro em pedra, fruto de um mero "capricho arquitectónico" (citando o autor deste blog)! Já para não falar de calçada original da época de construção do mosteiro, que desapareceu porque uma nova estrada precisava de passar! Ou o sistema hidraulico, parcialmente emparedado, afinal uma das coisas mais emblemáticas deste edificio! Como estes, outros atentados aconteceram a nível patrimonial e não só. O que a mim me preocupa para além da irreversibilidade dos mesmos é, a falta de "sensibilidade" deste arquitecto perante este monumento, a quem (ao monumento), impôs a SUA obra! Não discuto se é bonita ou feia, e prefiro nem entrar em questões de funcionalidade nem tão pouco em termos de custos excesivos. Agora em termos patrimoniais, Gonçalo Byrne foi tudo menos sensivel!
Que era necessário intervir na zona, isso concordo em pleno, agora destruir ou desprezar património em prol dessa intervenção, isso nunca poderei aceitar.
Uma intervenção a este nível deveria objectivar acima de tudo a valorização e o respeito pelo mosteiro, afinal o motivo máximo desta intervenção. Ao contrário, não só se lhe impôs, como ainda o tratou de forma desprezivel, como se estorvasse a sua presença ali.
Toda esta situação só acentou em mim, ainda mais o descrédito nas instituições nacionais, que tutelam o nosso património. Por mais que pense no assunto, não percebo como o IPPAR, compactua com este tipo de atentados!
Em quem iremos confiar?...

capeladodesterro disse...

Caro Pedro Cintra. Com todo o respeito custa-me a acreditar que sendo arquitecto consiga utilizar o adjectivo "sensível". Não se trata de um ensaio para uma qualquer revista de arquitectura... se está tão ciente da qualidade inquestionável da obra porque não se dá ao trabalho de rebater pelo menos um dos argumentos que me fazem ser contrário a ela? Se me convencer serei o primeiro a admiti-lo. Palavra de honra.
Qt ao ser de Alcobaça (sim o sr nasceu cá), estudar (não conheço uma obra, um artigo do autor, apenas um sobre a sua loja no mosteiro destruída por ausência de uma caixa de ar!), a intervenção no mosteiro... deve estar a referir-se à sinaléctica, à loja desmontada por um ataque de fungos e à ala sul, também ela muito questionável... Qt ao prestígio... bem sei que deu uns cursos de verão em Cambridge, que participa em conferências internacionais sobre centros históricos, isso só ajuda a alimentar mais a minha desilusão. Depois há outra coisa... até que ponto esta obra é dele? Não me custa nada dizer isto (ao contrário de muita gente na situação inversa) já vi edifícios e projectos de Byrne dos quais gostei bastante, mas nunca em Património classificado. Aguardo com alguma curiosidade a sua renovação do Museu Machado de Castro. No que concerne a Alcobaça considero lamentável o carácter "sensível" e a "sensibilidade patrimonial e principalmente histórica". Custa-me muito ouvir dizer isso...
De qualquer forma obrigado pelo comentário e apareça sempre que aqui não existem problemas de mobilidade.

pedro cintra disse...

"Para aqueles que sempre olharam para o Mosteiro, o que vêem hoje é uma fachada sem proporção, soterrada, uma escadaria anulada, uma adulteração de prioridades. Com esta praça a fachada do Mosteiro à sua construção barroca não teria esta configuração, as cotas dos terrenos seriam rebaixadas (solução mais que provável) ou então teríamos uma fachada de maior dimensão do que a actual."
Pediu para rebater apenas um dos seus argumentos. Não o pretendo fazer. Apenas escolhi esta sua afirmação para tecer algumas considerações que o possam elucidar.

Em primeiro lugar o Rossio nunca foi uma praça. A sua origem resulta de um espaço sobrante entre a Abadia e a Vila, aquilo que o arquitecto Gil Moreira classificou de "terra de ninguém". Daí que o anterior desenho do Rossio, acentuando uma axialidade da fachada do mosteiro com o seu espaço fronteiro, fosse a procura de uma regra geométrica artificial, pelo facto de negar a história e o património que este espaço "carregava": a sua relação com a orografia(relevo do terreno) e a hidrografia (a proximidade dos rios).
O trabalho de Byrne para o Rossio assenta sobre estas prerrogativas.

Em relação à fachada barroca da Igreja do Mosteiro e às suas proporções, lamento desiludi-lo mas, aquando da sua construção, as cotas do terreno eram ainda mais altas. As escadas de acesso à Igreja tinham originalmente apenas um lanço(para sul), um lanço e dois degraus (para poente), e um lanço e 4 degraus (para norte). O rebaixamento de cotas foi feito para aumentar(?) uma monumentalidade (que o Mosteiro sempre tivera) aquando da visita da Rainha de Inglaterra ao nosso País (e a Alcobaça).Daí que também não compreenda tanto alarido por caso do encobrimento de uns degraus que, efectivamente, nunca existiram.

Relativamente ao comentário de Dora Mendes também apenas dois reparos:
1. o sistema hidráulico a juzante do Mosteiro encontra-se apto a funcionar devido, precisamente a estas obras. Foi desobstruído e reposto.
2. o muro que o Miguel considera um "capricho" do arquitecto corresponde a uma correcção histórica, se assim posso dizer.
Por ali passava a cerca do Mosteiro e posteriormente ali foram edificadas algumas construções que delimitavam o agora Largo D. Afonso Henriques do espaço do actual Rossio. Foi demolida em 1840 por deliberação camarária o que veio a permitir passagem da EN1 mesmo em frente ao Mosteiro. Com este muro "caprichoso" volta, a distinguir-se estes dois espaços, valorizando-se precisamente o "bebedouro" como se lhe refere a colega de blog Dora Mendes, permitindo que este espaço volte a ser, como outrora foi denominado, o Largo do Chafariz.

Esclareço também que os meus comentários não assentam em questões de gosto.

Apesar de considerar que o gosto se discute...

Um abraço.

LD disse...

Já agora gostava de levantar mais umas questões:
1º O saibro é para pisar ou não? (É que se é não me parece que tenha consistência para aguentar. Se querem privilegiar o espaço com espectáculos a área tem que ser usada na sua totalidade como já deu para ver na sua inauguração).
2º Ao rebaixar a rua D. Pedro V não se corre o risco de inundações? É que lembro que toda aquela área foi sendo alteada ao longo dos anos devido às inundações).
3º Segundo algumas pessoas o Arquitecto Byrne não gostaria do projecto será? Então porque o apresentou se não lhe parecia o mais adequado?
4º Alguma vez se estudou o possível impacto das obras no comércio? (É que a vida de muitas pessoas é directamente afectada deveria haver um pouco mais de respeito por quem investe e por quem trabalha naquela zona).
5º Será que os materiais utilizados já foram testados?
6º Porque se plantou em pleno ano de seca a meio do verão as árvores? Já agora as arvores são Carvalhos Americanos porquê? Não seria melhor árvores típicas da região? (É que caso o Sr. Arquitecto não saiba até temos varias espécies tradicionais de carvalho como por exemplo o carvalho português ou cerquinho “Quercus faginea”, bom mas é só uma sugestão).
A obra também tem aspectos que considero positivos, por exemplo as esplanadas e toda essa parte com os chapéus que privilegia o contacto das pessoas com a praça, também acredito que vá trazer mais pessoas a esta zona para os cafés e bares que ali existem, já em relação ao comércio não tenho tanta certeza.

TMA disse...

A obra de Byrne transporta um conjunto de propostas de desenho e abordagens plásticas muito boas.
quanto à intervenção em Alcobaça “olhos que não vêem coração que não sente”