terça-feira, março 01, 2005

Do Capricho da Arquitectura à arquitectura de Capricho

Estávamos no auge da polémica sobre o projecto de requalificação do Rossio de Alcobaça quando me ocorreu este título. Em grande medida por que correspondia a um paradoxo que me foi apresentado entre o Presente, simbolizado pelo projecto de Gonçalo Byrne e o Passado simbolizado na descoberta da figura de Azevedo Fortes e do seu trabalho na arquitectura, apesar da sua qualidade intrínseca como pensador e homem de erudição. Também por aqui passa uma das vertentes do paradoxo que apresento, a uma visão do espaço e do homem, baseada na compreensão de ambos, no estudo exaustivo, sobrepunha-se uma cultura do aleatório, irresponsável quanto aos anseios do homem, e da maior fragilidade no que concerne ao conhecimento contextual.
Em resumo, do capricho pela arquitectura passámos a uma arquitectura que satisfaz o capricho de arquitectos, empreiteiros e políticos. Uma tríade que brilha com dinheiros públicos, que oculta a sua incompetência com o fausto do nada.
Na primeira apresentação públicas do projecto de requalificação da área envolvente ao Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça pensei que iria assistir ao capricho da arquitectura. Gostei de exercícios que considerei eminentemente teóricos, pensei que se tratava de uma sessão de brainstorming público, em que o arquitecto abria a sua alma e soltava ideias, algumas delas irrealistas, como a inclinação de todo o largo do Rossio, que seriam depois trabalhadas e eventualmente abandonadas. Mantive a minha fé quando as primeiras perguntas da assistência foram lançadas, todas elas particularmente incisivas, não ouvi as respostas necessárias do projectista. Seria falta de preparação ou apenas uma estratégia de apresentação do projecto?
Na segunda e nas restantes apresentações percebi que era falta de preparação, pois nunca foram respondidas cabalmente e ainda hoje, com as constantes alterações do projecto, não creio que alguém possa explicar convenientemente. Do trânsito à arte urbana, do impacto no comércio ao turismo, tudo ficou por dizer.
No meio de tudo isto a incongruência maior, o organismo do Estado que tutela o nosso património classificado foi emitindo pareceres que alertavam para a sensibilidade que o projecto requeria, para a oportunidade histórica que uma alteração tão profunda poderia permitir, nomeadamente no domínio da arqueologia. A tudo isso respondeu o IPPAR, depois das obras terem avançado e estando sujeitas a uma providência cautelar solicitada por um movimento civil, com a sua habitual coerência. De repente, todos os seus alertas deixaram de fazer sentido e a obra cumpria todos os requisitos respeitantes a um edifício património mundial. Desafio o IPPAR a revelar ambos os pareceres de maneira a que todos possamos fazer o nosso juízo. Porque não estão os pareceres desse organismo disponíveis para consulta na Internet? Seria mais transparente? Para adensar a história, dizemos ainda, que o último parecer que chegou à Câmara Municipal de Alcobaça, na véspera da decisiva sessão em tribunal, era assinado por Flávio Lopes, o mesmo senhor que muito recentemente em comentários para a imprensa referia que o IPPAR não poderia ter duas versões sobre o mesmo assunto. Falava nessa altura relativamente à provável destruição de 180 metros do Aqueduto das Livres de Lisboa, cerceando a sua integridade e colocando em causa uma eventual candidatura a Património da Humanidade. O aqueduto que resistiu ao sismo está agora em risco uma vez que dará lugar a um viaduto que poderia passar em túnel mas mais uma vez há uma inversão de valores e prioridades.
Não nos podemos esquecer que o IPPAR não pode ter duas posições sobre o mesmo assunto.
Para terminar sobre a coerência desta entidade, e para além dos casos anteriores, o que dizer do recente projecto de Gonçalo Byrne para o Largo Barão Quintela, em Lisboa. O IPPAR está à beira de aprovar um projecto que merece a reprovação de todos, pois vai colocar um parque de estacionamento, numa praça muito pequena, a 30 metros do parque do Camões, destruir o jardim romântico e mudar a estátua de Eça de Queirós da sua localização, para além da colocação das esplanadas. As semelhanças com Alcobaça são evidentes!
Em Alcobaça, Byrne e o IPPAR foram responsáveis pela destruição dos Jardins frontais ao Mosteiro, retiraram uma escultura de homenagem pública a Vieira Natividade, que fora colocada defronte da casa deste insigne alcobacense. Será desterrada para um beco, em nome da unidade estética do projecto Byrnesco. Aposto que em Lisboa como em Alcobaça, a praça também será em socalcos como essa notável transformação que está ocorrer na praça Afonso Henriques, em Alcobaça.
Fica provado a todos os autarcas de Portugal que, caso possuam património classificado no seu concelho e projectos de difícil aprovação pelo IPPAR, a solução é chamar o arquitecto Gonçalo Byrne. Para o IPPAR não aprovar um projecto da sua autoria seria colocar tudo aquilo que fez para essa entidade. No caso do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, tudo o que foi feito, foi mal feito e desbaratinando doses maciças de fundos públicos. Três casos:
Loja do Mosteiro – encerrada por um ataque de fungos que levou à sua deterioração precoce. Todos gostaríamos de saber o seu orçamento…
Ala Sul do Mosteiro – lajeada a mármore grego (?) e paredes e rebocos atacados por salitre, soluções internas muito criticáveis como o completo desmantelamento do interior, permitindo as mais insipientes interpretações na altura da reconstrução.
Área envolvente ao Mosteiro – sucessão de contradições quanto ao pavimento a utilizar (saibro, laje, calçada); o parque de estacionamento era fundamental para o projecto, não vai ser feito, mas as obras continuaram; quanto ás árvores a colocar; quanto à violação de terrenos em área classificada; quanto aos jardins existentes, da mesma forma que cortou, nas traseiras da Ala Sul, uma árvore de grande porte e com umas dezenas de anos, para colocar uma escada que nunca foi construída; quanto ao aproveitamento público dos espaços, anulando uma praça ao colocá-la em patamares inclinados que inviabilizará o seu usufruto actual em nome de uma suposta ligação com um espaço interior do Mosteiro que, como sabemos, se encontra permanentemente fechado.
O que dizer então das fundações que estão a ser colocadas em frente do Mosteiro alegadamente para suportar os camiões dos grandes espectáculos que ali se irão realizar. Então não passou no Rossio a estrada nacional Lisboa-Porto e actualmente a nacional 8? Sempre passaram camiões, nunca aconteceu o abatimento. Já agora então o trânsito não é para ser cortado, qual é a necessidade de reforçar uma via pedonal?
Arquitectura de capricho ou capricho da arquitectura? Eu opto pela primeira...

13 comentários:

Anónimo disse...

Um amigo deu-me o seu endereço e li com atenção o artigo.Quero-lhe dizer que concordo com tudo o que disse. Por a Praça de D. Afonso Henriques aos sucalcos não lembra ao diabo. Não conheço o projecto em pormenor mas certamente os cidadãos não vão ficar beneficiados com esta ideia. É pena que os nossos autarcas sejam tecnicamente analfabetos, que nem se quer saibam ler um desenho técnico. Projectar é coisa que nunca aprenderam nem fizeram, pior nem querem saber.
Assim qualquer Arquitecto sem se chatear muito, amanha-se com uma pipa de massa e ainda se ri da ignorância deles.
O sistema é assim , são quase sempre, os menos capazes que estão na linha da frente comendo na mangedoura da politica, aplaudidos por ignorantes e oportunistas que esperam também uma oportunidade para usarem o mesmo local de repasto
Não se fez o parque subterrâneo, mas gasta-se uma fortuna nas tais consolidações se calhar de necessidade duvidosa. Quanto aos prejuísos dos cidadãos "Who Cares?"
O deles está bem seguro.
Meu caro temos a maior aberração gestionária que alguma vez Alcobaça teve.De quem é a culpa? Só nossa!.

E para acabar uso as suas brilhantes palavras. "Realmente é uma tríade que brilha desbaratando os dinheiros públicos, e que esconde a sua incompetência com o fausto do nada". Acrescento , Aplaudida por sacanórios oportunistas, e bajulada por uma imensidão de idiotas miopes, que pensam que se assim fizerem, também poderão um dia comer na mesma mangedoura.
Só que o local é pequeno e a besta maior não deixa chegar ninguem que faça sombra á palha.
Parabéns pelo artigo, continue.

capeladodesterro disse...

Obrigado pelo comentário porque a ideia é que se debatam ideias, que surja polémica se for necessário, que se acabe com a letargia instalada e especialmente que os iluminados não se julguem heliocêntricos...

Anónimo disse...

Tenho a perfeita noção que não se vai a lado nenhum com comentários iguais aquele que escrevi. Contudo a verdade nua e crua deve ser dita para que pelo menos quem a ler se possa questionar sobre a realidade dos "So Called Iluminados". Aquilo que parece, nem sempre é.

Assim é pena que os ditos não sejam mesmo iluminados pois se o fossem, a comunidade certamente ganhava, com isso, e infelizmente não é o caso.

Já viu por exemplo que em 1945 o Senhor João de OLiva Monteiro e outros , construíram um cinema com 700 lugares e que agora se gastaram cerca de UM MILHÃO!!! de contos a recuperar o Cineteatro para ficarmos, com uma sala de 320 lugares!, que é inferior à sala da Filarmonica da Vestiaria!!!.

Com esta lotação torna incomportável para o cidadão comum, o preço dos bilhetes de qualquer espectáculo.

Foram gastos 7 mil contos em prémios para concursos de ideias e Alcobaça poderia ter ficado muito melhor.

Foram concursos de ideias para quem não as tinha.

Em 1945 no tempo em que as pessoas vinham à Vila de burro, "raros eram os que vinham de cavalo," construi-se um edificio ao nível dos melhores teatros Europeus do tempo, agora sabe-se lá porquê, ficamos com uma sala menor que a maior parte das Associações que há por todo o Concelho.
Associações,essas sim, construídas com o esforço das pessoas e com muito poucas ajudas.

Essas pessoas, Do Bárrio , da Vestiaria , do Casal Velho , do Casal Pardo dos casais de Santa Teresa, e de outras Freguesias, são certamente, essas sim , iluminadas, pois , construiram Associações de qualidade e com muita pouca ajuda.

Estes cá do Burgo já com tudo feito nem sequer são capazes de melhorar eficazmente, aquilo que os Alcobacences dos tempos antigos fizeram.
Gastarem muito mal, o nosso dinheiro, lá isso sabem.

UM MILHÃO DE CONTOS!!!!

Ora vejamos, a reparação do Cinema da Nazaré custou 110 mil contos.
A remodelação do cinema de Faro creio que foi de 450 mil. Um novo de raiz em Mira de Aire 250 mil, e por aí além.

Estes "iluminados" gastaram UM MILHÃO num cinema , dada a idade, em muito boas condições, estragando-o ao reduzir a lotação, da sala principal.

Assim!
"Eu quero é voltar para a ilha".

Não desista, este País precisa de juventude competente interveniente e acima de tudo com ilusões e esperança, de que as coisas têm que mudar. Quando?, é dificil dizer
Não desista

LD disse...

Acho que já se levantou aqui quase todas as questões mas a meu ver a mais importante diz respeito a salvaguarda dos comerciantes dessa zona, tem que se avaliar o impacto das obras no comércio para que não ponha em cheque os seus proprietários e funcionários, ninguém tem o direito de fazer alterações sem precaver os seus efeitos negativos. O período de obras coincide com um período de crise geral. Deveria de ser ponderado e analisado, numa palavra RESPONSABILIDADE!

LD disse...

Gostava que as questões que aqui foram postas tivessem algum seguimento. Alguém que dê explicações!

capeladodesterro disse...

Concordo! Concordo! Concordo! Com a exorbitância megalómana (ou egolómana?!)dos gastos e articularmente com o pedido de explicações do LD... Está na altura das respostas a todas as dúvidas. A política tartaruga precisa de acabar.

LD disse...

Já agora Miguel gostava que se falasse de alternativas à actual Câmara as que estão declaradas... e as que ainda não.
Mas o actual panorama politico parece... fraco.

capeladodesterro disse...

Brevemente LD...

Anónimo disse...

Isto parece que não arranca e é pena. Se calhar se falásse-mos do Mourinho haveria muita gente a dar opiniões.
É o que temos e pouco se pode fazer para mudar isto.
Quando deputados imbecis, em vez de discutirem os problemas do País, raivosamente atacam o Prof. Freitas do Amaral, que quer se goste dele ou não, vale mais sozinho, que a bancado toda dos palermas do PP.
Não podemos esperar muito.

POis o LD fala de Autarquicas e a necessidade de discutir o assunto.
Bem a menos que surja algum conjunto de cidadãos "ingénuos" que se queiram candidatar com a esperança de mudar alguma coisa, já está tudo cozinhado.
Ora vejamos:
Os vereadores do PSD todos querem ser Presidentes mas ainda não estão eleitoralmente maduros para isso, portanto vão empurrar a mesma anedota , para que ele lhes guarde o lugar para daqui a 4 anos.

A CDU claro lá vai apresentar o mesmo pois que certamente os 60 pacotes mensais sempre dão uma ajudinha.

Quanto ao PS não me parece que apresentem alguém que possa vir a fazer a diferença.
Mesmo que apresentem, a comitiva que será forçado a trazer será certamente de muita má qualidade.
Já começámos a ver a carruagem com o assalto do DA ao lugar. Mas no PSD, também houve assalto pelo control da PC pelo bloco Pataias , só não houve cartazes, mas a técnica é a mesma. Estar na linha da frente para não perder o tacho.
Portanto vamos ter mais do mesmo.
Como seria bom para Alcobaça que não fosse assim , mas depois da experiência com Coelhos, Guerras e Sapinhos , verificamos que só temos tido bicharada inferior, e Alcobaça precisa de gente com outro gabarito.
Por hoje fico por aqui.
Vá lá deixem a bola e o bigbrother e ponham os neurónios a trabalhar

LD disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
LD disse...

Ora eu não vou comentar a parte da política nacional, isso é noutro sítio o que comento é a local que bem precisa de estímulos. Eu bem gostaria de dizer aqui que está encontrada a mudança mas o único candidato declarado é do PS e não é primeira escolha ora se a isso juntarmos um PSD que vai ter Sapinho para ganhar eleições e depois logo a seguir passar a pasta mas a quem?
Uma CDU que vai novamente ter Rogério que trabalha mas é um pouco repetitivo e no meu entender a sua personalidade não se assemelha ao partido que representa o que para mim é bom mas para outros pode ser mau!
Depois temos os partidos sem representação na Assembleia Municipal um PP com uma indefinição que se arrasta e que está longe de estar resolvida apesar de ter estrutura e bastantes militantes não consegue unir-se à volta de num candidato e por outro lado ficaremos na esperança da Nova Democracia e o Bloco trazerem algo de novo a Alcobaça.

Anónimo disse...

Dá ideia que o cenário não é famoso.
Não se iluda meu caro, Sapinho nunca se canditaria para abrir caminho para outro. Ele sabe usar os outros para abrir o caminho para ele
O seu ego diz-lhe que ele é o maior e rodeado por yes men não vê outra coisa.
É a vaidade que fica o resto é só conversa .
Falando do PP mas quem é o PP no nosso Concelho, vale o quê? Nada meu caro.
Ou o PS leva gente com algum peso ou então vai ficar tudo na mesma.
As pessoas votam sem pensar. Então qual é o melhor clube de Futebol dos ultimos anos? Todos dirão o Benfica!
Pois mas se calhar o Porto tem sido de longe o melhor, mas ninguem quer ver.Na politica é a mesma coisa

LD disse...

Bom mas o PP mesmo não tendo peso lá vai dando Homens que agora são quase cabeça de cartaz no PS e já o foram no PSD se por acaso estivessem unidos no PP a coisa podia mudar mas isto é só uma opinião...e como tudo muda...