domingo, setembro 04, 2005

A polémica saudável continua

Comentário de Pedro Cintra

“Para aqueles que sempre olharam para o Mosteiro, o que vêem hoje é uma fachada sem proporção, soterrada, uma escadaria anulada, uma adulteração de prioridades. Com esta praça a fachada do Mosteiro à sua construção barroca não teria esta configuração, as cotas dos terrenos seriam rebaixadas (solução mais que provável) ou então teríamos uma fachada de maior dimensão do que a actual."Pediu para rebater apenas um dos seus argumentos. Não o pretendo fazer. Apenas escolhi esta sua afirmação para tecer algumas considerações que o possam elucidar.Em primeiro lugar o Rossio nunca foi uma praça. A sua origem resulta de um espaço sobrante entre a Abadia e a Vila, aquilo que o arquitecto Gil Moreira classificou de "terra de ninguém". Daí que o anterior desenho do Rossio, acentuando uma axialidade da fachada do mosteiro com o seu espaço fronteiro, fosse a procura de uma regra geométrica artificial, pelo facto de negar a história e o património que este espaço "carregava": a sua relação com a orografia(relevo do terreno) e a hidrografia (a proximidade dos rios).O trabalho de Byrne para o Rossio assenta sobre estas prerrogativas.Em relação à fachada barroca da Igreja do Mosteiro e às suas proporções, lamento desiludi-lo mas, aquando da sua construção, as cotas do terreno eram ainda mais altas. As escadas de acesso à Igreja tinham originalmente apenas um lanço(para sul), um lanço e dois degraus (para poente), e um lanço e 4 degraus (para norte). O rebaixamento de cotas foi feito para aumentar(?) uma monumentalidade (que o Mosteiro sempre tivera) aquando da visita da Rainha de Inglaterra ao nosso País (e a Alcobaça).Daí que também não compreenda tanto alarido por caso do encobrimento de uns degraus que, efectivamente, nunca existiram.Relativamente ao comentário de Dora Mendes também apenas dois reparos:
1. o sistema hidráulico a juzante do Mosteiro encontra-se apto a funcionar devido, precisamente a estas obras. Foi desobstruído e reposto.
2. o muro que o Miguel considera um "capricho" do arquitecto corresponde a uma correcção histórica, se assim posso dizer.Por ali passava a cerca do Mosteiro e posteriormente ali foram edificadas algumas construções que delimitavam o agora Largo D. Afonso Henriques do espaço do actual Rossio. Foi demolida em 1840 por deliberação camarária o que veio a permitir passagem da EN1 mesmo em frente ao Mosteiro. Com este muro "caprichoso" volta, a distinguir-se estes dois espaços, valorizando-se precisamente o "bebedouro" como se lhe refere a colega de blog Dora Mendes, permitindo que este espaço volte a ser, como outrora foi denominado, o Largo do Chafariz.Esclareço também que os meus comentários não assentam em questões de gosto.Apesar de considerar que o gosto se discute...Um abraço.”



Respondendo aos seus argumentos Pedro devo dizer a título de preâmbulo que me parece que as nossas divergências quanto ao processo e ao seu resultado só poderão ser debatidas à mesa de um qualquer café, com uma longa tertúlia!
No entanto não posso deixar de contra-argumentar... Tenho ouvido todos os defensores do projecto utilizarem o argumento, que o Pedro também invoca, de que o “Rossio nunca foi uma Praça” e utilizando uma expressão do arquitecto Gil Moreira, “terra de ninguém”, para defender essa alegada continuidade histórica.
Primeiro o nome do artigo do arquitecto Gil Moreira onde essa expressão é utilizada é o seguinte: “Rossio de Alcobaça. Praça ou terra de ninguém?”. Atente no pormenor da interrogação. Logo na introdução do artigo o autor refere: “O Rossio, antigo terreiro fronteiro aos estabelecimentos monacais, embora incluído dentro da área antiga cerca (até para fácil acesso às margens do Rio Baça) era uma espécie de terra de ninguém, pois não existindo à partida núcleo urbano, também não seria habitualmente frequentado pelos monges, cuja rotina diária se desenrolava no interior da grande massa edificada.”
O projecto anterior do Rossio padecia realmente da acentuada “axialidade da fachada do Mosteiro” por isso nunca o defendi, por isso também queria a mudança, e me entusiasmei com a possibilidade de uma requalificação séria. Mas aquilo que anteriormente o Mosteiro possuía era a vivência cruzada de praça, onde os locais no seu quotidiano se misturavam com turistas. Neste momento no Rossio somos todos turistas.
Não se pode afirmar que o Rossio nunca foi uma praça.
Sabia que o arquitecto Gonçalo Byrne manifestou o seu espanto de desconhecimento quando lhe avançaram uma explicação para o facto do Rossio, durante tantos anos ter sido em saibro ou terra e ter a configuração que lhe conhecemos? Dizia o amigo que com ele falou que o Rossio era um espaço de treinos militares das milícias locais, que ali faziam os seus exercícios duas vezes por ano! O desconhecimento histórico do arquitecto é gritante e indesculpável para alguém que joga permanente com o seu passado no Mosteiro e em Alcobaça como factor de credibilização.
O Pedro refere ainda a questão da escadaria e da fachada. Escolheu o parágrafo aparentemente menos factual do meu texto, o que considero de engenhosa acutilância! No entanto quando escreveu a descrição da escadaria (sinceramente desconheço a fonte de onde a retirou) pergunto se conhece a seguinte: “a sua forma [fachada] é a seguinte: vindo de fora a entrar na igreja se oferece primeiro um átrio descoberto alto e quadrado, chamado vulgarmente patim com três faces e três entradas (...) sobem a ele por três escadas metidas no corpo do mesmo átrio; a da face principal (...) é largo 52 palmos e tem 18 degraus (...) as outras duas têm igual largura e altura e estão uma a norte, a outra a Sul” (SANTOS, Frei Manoel dos. Descrição do Real Mosteiro de Alcobaça. 1716, p. 33). Fica assim constatado que a leitura da fachada e da escadaria não é tão linear como apresentou. A escadaria era igual em todas as suas faces, mesmo com a inclinação do terreno. Apesar disso mais uma vez afirmo que a questão dos degraus está longe de ser o problema que mais me incomoda. O mesmo não posso dizer da leitura da fachada. Pergunto ao Pedro se a anulação da escadaria principal, do acesso principal ao Mosteiro, também foi uma “recolocação histórica”?
Em relação ao desnivelamento do terreno terá o arquitecto dado a devida atenção a estas palavras: “A parte do terreno mais elevada [frente à Ala Sul] tencionavam os frades nivelar para que o edifício ficasse completamente simétrico. Sabemos isto por umas escavações onde apareceram os alicerces que indicavam essa futura obra” (NATIVIDADE, M. V.. O Mosteiro de Alcobaça. 1885, pp. 87-88)?
Já no séc. XIX e inícios de XX as cotas estavam mais baixas, existindo um número maior de degraus visíveis do que aqueles que refere. As cotas não podem então só ter sido alteradas quando da visita da rainha de Inglaterra. O que disse não é factual.
Em relação aos comentários ao comentário de Dora Mendes aproveito para o elucidar do seguinte:
O sistema hídrico do Mosteiro funciona quando o vir a funcionar, por mais garantias que me possa dar. Não foi desobstruído, foi parcialmente destruído e substituído por caixas de betão e tubagens. Mesmo que o seu fluxo seja respeitado não foi a sua integridade. Tenho fotografias que o demonstram. Desculpe Pedro, mas é verdade. O sistema tinha tudo para funcionar integralmente, assim a obra o tivesse projectado.
Não considero um “muro um capricho arquitectónico”, considero toda a obra. Aqui o Pedro referiu-se ao muro da praça D. Afonso Henriques, mas não era a esse que Dora Mendes se referia. Falava do Muro que acompanha o patim em frente da Ala Sul. A voluta que foi deslocada para assentar o muro caprichoso é o "dique para suster o saibro". Neste local nunca houve muro nenhum.
Já que fala na praça D. Afonso Henrique, gostava de perceber em que sondagem arqueológica se baseia então a construção desse muro que, como afirma, “corresponde a uma correcção histórica”, e que nos remete para a antiga cerca do Mosteiro. Seria mesmo ali, não seria mais no centro da praça? Pergunto apenas...
Quanto ao “bebedouro”... assim foi chamado porque era um chafariz que serviria para os animais matarem a sede. Que estranho essa valorização de um chafariz de fins tão pouco nobres e nada condicentes com a linguagem requintada da obra. Não terá ido esta recolocação histórica um pouco longe demais. Se o respeito e o conhecimento do património tivesse imperado este seria um chafariz que não teria sido elevado, pois agora apenas o animal homem lá chega, e a bica continuaria a ter a altura que tinha para encher um cântaro. Até os apoios que lá estavam para esse propósito foram retirados. Sabe que em tempos, à frente da bica, estavam colocados três pinos em pedra (que foram retirados para um dos arcos que ligam as duas praças) que tinham como função não permitir que os animais bebessem no espaço das águas potáveis. Aos animais pertenciam os espaços laterais. São pormenores, bem sei, mas têm muito da essência das peças e espaços. Estes poderiam ter sido utilizados para valorizar o largo do chafariz...
Já agora Pedro que me diz daquilo que foi feito à fonte da Ala Sul? Pessoalmente não me fascinava, mas também não me chocava, ao contrário do que agora está feito. Desmontar uma fonte e enterrar a sua última taça!? É bom que alguém pense no perigo que representa uma piscina com mais de um metro de profundidade, num espaço onde andarão crianças a brincar. Até me arrepio quando penso na gestão da segurança que não existe nesta obra...

Não gostaria que lhe parecesse arrogante, ma apesar de não ser arquitecto, procuro perceber as dinâmicas do património e do ambiente em que está inserido, mas para além disso sou um cidadão que quer acreditar nas instituições e nas pessoas. Não posso aceitar que se minta em tribunal, que se violem classificações, que se gastem milhões de euros em caprichos num país em crise. Não posso aceitar que as pessoas e o património não tenha sido o eixo desta intervenção. Estão aí as eleições e o actual executivo camarário quase de certeza ganhará, logo sentir-se-á legitimado para acreditar naquilo que fez. Eu penso de forma contrária.
Quanto mais procuramos reescrever a História, mais imperceptível esta se torna para futuras gerações. Por tudo isto aguardo com alguma ansiedade a publicação dos relatórios das sondagens e das escavações (?) arqueológias da obra.

P:S. Coloco este espaço à sua inteira disposição para algum texto que o Pedro queira aqui colocar, com o destaque que um comentário a um post não possui. Apenas pela extensão do meu comentário aqui o coloquei, acho que é de inteira justiça se quiser responder fazer-lhe o mesmo. Este é um espaço livre, de debate de ideias e princípios. Teria muito gosto. Está à disposição.

5 comentários:

pedro cintra disse...

Boa tarde.

Reafirmo porque é um facto histórico indismentível: o Rossio NUNCA foi uma praça na medida em que a génese desse espaço não foi a de ser pensada como tal, resultou de um processo "orgânico" muito interessante entre a comunidade monástica e a comunidade laica(a Vila) que também está bem documentado.

Fachada e degraus.
Também é um facto que a orografia deste espaço se elevava para Sul. Ou seja, a cota do terreno em frente à ala sul era superior à cota do terreno fronteiro à ala norte. Logo o n.º de degraus nunca poderia ser o mesmo para norte e para sul. Aliás basta atentar nos registos gráficos (desenhos, pinturas) feitos à época que disso dão testemunho.

Quando falo em correcção histórica no que diz respeito ao muro no prolongamento da ala norte, não o faço no estrito sentido de ele ser ou não exactamente naquele sítio (como é óbvio). Digo no modo como se distinguiram dois espaços (o Rossio e a antiga Praça do Chafariz)afastando definitivamente a estrada que passava de permeio e que os desvalorizava mutuamente enquanto elementos urbanos.

Quanto ao mais, não tenho procuração para defender o projecto, nem o processo e muito menos o arquitecto Byrne.

Aquilo que eu entendo é que a história é um processo dinâmico e não estático. Qualquer intervenção urbana/arquitectónica, e ainda com mais razão, uma intervenção numa zona histórica e de valor patrimonial exige da parte do arquitecto uma atitude crítica baseada no seu conhecimento do "objecto" de trabalho.

É nesta perspectiva que tenho feito os meus comentários e nunca na presunção de convencer alguém que pense de modo diferente.

pedro cintra disse...

Desenvolvo...

O conhecimento que o arquitecto tem do "objecto" de trabalho ajuda-o a tomar as opções de projecto.

Essas opções, quaisquer que elas sejam, poderão naturalmente ser discutidas, e motivar diferenças de opinião. Foi isso que me levou a emitir as minhas.

No entanto, parece-me de alguma desonestidade intelectual tentar sugerir que o arquitecto Byrne baseou a sua intervenção em razões de capricho, com o desconhecimento quase total sobre o território em que estava a intervir ou, conhecendo-o, ignorando-o.

A diferença de opinião é saudável, a classificação de um trabalho sério como uma "ópera - bufa", caprichosa e artificial parece-me que não dignifica quem o profere.

E por aqui me fico.

capeladodesterro disse...

Pedro o tempo será juíz. Mais uma vez assume posições indefectíveis em algumas coisas que por mim são colocadas como perspectivas que deveriam ter sido ponderadas.
Quanto à ópera-bufa... naturalmente refiro-me às mentiras em tribunal, aos pareceres do IPPAR esquecidos no último dia,a desconhecimentos graves sobre a hsitória do Mosteiro, às obras sequenciais que foram em simultâneo, aos estudos em cima do início da obra, às tomadas de posição públicas por um dos arquitectos de que falharam na escolha dos materiais, etc. Em Portugal tudo isto é normal e aceitável... é assim que devo encarar? Para mim não é. Não é este o país que quero.Se por isso não sou digno... As minhas palavras são fortes porque são livres e creio que medir o peso das palavras comparativamente àquilo que foi feito só denunciaria um tacticismo que não possuo. Estou habituado a ter de prestar contas pelos meus erros e sucessos. Era só isso que gostaria que tivesse acontecido.

Anónimo disse...

Esta polémica adensa uma das minhas dúvidas quanto à obra de requalificação prestes a ser concluída: afinal, que estudos de cariz historio e urbanístico suportaram as opções arquitectónicas que ganharam forma no Rossio? Haveria a necessidade de serem tornados públicos esses estudos. A intervenção humana numa zona de grande sensibilidade, tendo em conta a grandiosidade do património edificado, teria que ser realizada com pinças, respeitando e até evocando o passado do Rossio com a sua relação com o Mosteiro. A não existência de estudos de índole histórica, caso se verifique, confirmaria que, afinal, uma intervenção ponderada não se compadece com os calendários políticos dos decisores autárquicos. Assim, o Rossio torna-se naquilo que, segundo Gil Moreira, terá sido na sua génese: uma «terra de ninguém», dado o desconforto que se apodera de quem envereda pela largo.

José Augusto Pereira

Anónimo disse...

Bem não tenho tempo para escrever muita coisa sobre as obras do largo do Mosteiro,e já é tarde para isso, mas certamente não posso deixar de dizer isto :

Não gosto do que está feito. Não tem brilho , está pobre , não justifica o dinheiro que se gastou.

-Não percebo onde está a melhoria de imagem e de utilização da retirada do acesso central ao Mosteiro.

O D. Pedro ter-se-ia recusado a entrar com a D.Inês de lado.

Não percebo que coisa é esta da Praça de D. Afonso Henriques ,serve para quê?
Como elemento decorativo é uma obra muito cara e pobre, não acham ?
Era dificil fazer pior!!!!!!

O Byrn certamente que não acha assim, pois indubitavelmente, fez o que quis e também recebeu o que quis , lamentavelmente não teve gente á altura para o questionar.

Pedras em esquina viva para se partirem mais facilmente, podiam aprender com os canteiros que fizeram o Mosteiro mas não!!.

As obras anteriores duraram cerca de 50 anos a serem alteradas, estas vão ser modificadas muito antes disso.

Fala-se em caprichos então mas que diabo servia aquele muro junto ao Hotel S.Maria que agora foi destruido, não era um capricho do Arquitecto? servia para quê? então agora foi abaixo , Porquê? Tragédia!!!!

Tive alguma esperança que a coisa ficasse melhor, que fosse uma mais valia para Alcobaça.
A Alteração do Jardim da Camara foi uma mais valia agora isto, não consigo ver, e não estou só!!!! .

Estive no mês passado no Dubai e vi como eles transformaram um deserto num jardim, nós como somos uns crânios transformamos um JARDIM num DESERTO.
É pena, continuamos na pacovisse do
costume, deve ser da nossa genética árabe deformada.
Gostava de saber onde estavam os Arquitectos do IPPAR?

O Rossio está pobre se era esse o objectivo então está plenamente conseguido


Então transformar um jardim num deserto co areia movediça projectada e acompanhada por nabos que não sabem o que projectam está á vista que não sabem.
Será certamente uma obra que qualquer pessoa poderia fazer, penso que mais uma vez Alcobaça teve azar.

Alguém vai daqui com uma boa impressão deste largo?
Um abraço