quinta-feira, agosto 11, 2005

A requalificação do Rossio

Da gestão da mudança à gestão de danos.
A gestão da mudança. Foi isso que falhou em toda a linha em todos os projectos de requalificação da envolvente à fachada do Mosteiro de Alcobaça. Digo projectos, pois ainda hoje espero uma maqueta com o projecto definitivo. Em todas as apresentações públicas até à exposição permanente no Turismo, aquilo que vi foi a mesma maqueta que nos foi apresentada na primeira apresentação pública no Cine-Teatro.
Todo o processo foi confrangedor no conteúdo e arrogante na forma.
A apresentação pública das primeiras ideias não ponderou as críticas que surgiram, encarou-as como provenientes de velhos do restelo, assistimos a arquitectos a fazer de políticos e políticos a fazer de arquitectos. Ficámos a saber recentemente por uma notícia televisiva, na voz do Vice-presidente da Câmara Municipal que se está a estudar a questão dos degraus enterrados da escadaria do Mosteiro. A seguir virá o arquitecto Gonçalo Byrne explicar qual a política para o desenvolvimento económico do concelho a partir da obra de requalificação do Rossio. Porque não fala o gabinete responsável por esta obra? Será essa uma pesada factura para quem recebeu uma obra desta dimensão sem sequer preencher os formulários de um concurso público?
Foi pena a reportagem da SIC não ter confrontado a Câmara Municipal com as promessas de que as cotas dos terrenos do Rossio não seriam alteradas, que a imposição legal de área non aedificandi não iria ser desrespeitada, que o trânsito não mais iria circular, que a obra seria feita de forma faseada, etc.
Num tom emotivo, porque creio que tenho esse direito, custa-me ver o monumento que mais admiro no Mundo ser devassado na sua integridade por uma obra que falha naquilo que é mais essencial: no respeito que lhe deveria mostrar. Para aqueles que sempre olharam para o Mosteiro, o que vêem hoje é uma fachada sem proporção, soterrada, uma escadaria anulada, uma adulteração de prioridades. Com esta praça a fachada do Mosteiro à sua construção barroca não teria esta configuração, as cotas dos terrenos seriam rebaixadas (solução mais que provável) ou então teríamos uma fachada de maior dimensão do que a actual.
O ambiente do Rossio é hoje marcado pelo edifício dos Correios, por uma estrada que foge do Mosteiro, por uma barreira de àrvores e pinos de latão e por um carrocel de níveis e desníveis que adulteram o recato que a observação do monumento requer. A banalização atinge o ofensivo com os propalados degraus “à Pompeia”, com calhas pluviais que partem bem do centro dos diferentes lanços de escada e com a monumental entrada para a Ala Sul, que sempre foi dos espaços de maior humildade do Mosteiro, mas que assiste no Presente à sua recolocação histórica como obra maior do ambiente construído cisterciense. Bem ao lado, desta monumental Ala Sul, foi “simplificada” uma fonte precisamente porque era demasiado… monumental.
Toda a obra impregna desta relação ditatorial que alguns arquitectos e outros protagonistas cultivam com o Passado, fazendo tábua rasa do existente e colocando a sua criação como dogma inabalável. Por todos os motivos, Alcobaça deveria ter tido a maior das preocupações com uma obra desta envergadura. Para aqueles que acreditam que nos irá colocar nos píncaros das intervenções em contextos históricos, gostaria que quem tomasse decisões pelo menos conhecesse aquilo que se faz no exterior e que expressões como “Ambiente Construído” e “Ambiente Histórico” carregassem consigo o peso do conhecimento e da definição de políticas inovadoras que se geram em todos os países desenvolvidos. Uma coisa parece-me evidente, Simon Thurley, director do English Heritage e doutrinário destes conceitos, quando veio a Portugal, a convite do IPPAR, não veio a Alcobaça. Porque motivo? Não por demérito do monumento, certamente.
Poderemos falar de requalificação quando as pessoas não foram o centro de toda a intervenção?
Analisando friamente. As requalificações de sucesso em centros históricos foram aquelas que combateram a desertificação agindo em coordenação com os moradores, inclusivamente nas suas próprias habitações. Em Alcobaça nenhum projecto ou apoio foi desenvolvido para gerar mais e melhor habitação no centro histórico.
As requalificações em espaços públicos respondem no presente a questões fundamentais como a mobilidade das crianças e principalmente dos mais velhos. Neste momento temos um espaço público onde calhas de escoamento pluviais atravessam áreas pedonais, onde as cores e a tipologia dos materiais aumentam a temperatura ambiente e a intensidade da luz.
As requalificações assentam numa visão estratégica que coloca o território em consonância, numa visão uniforme e integrada. O que temos em Alcobaça, neste momento, são várias Alcobaças. A Alcobaça de Ferro e a Alcobaça de Falcão. São estes os arquitectos que verdadeiramente ditam as diferentes estéticas, que só revelam a evidência: ainda não existe uma estratégia urbana para a cidade. Não tenhamos ilusões, o “chique” não se impõe por decreto.
As requalificações obedecem a rigorosos estudos de impacto no ambiente a intervir, a nível económico, numa equação simples de custo/benefício. O que temos em Alcobaça é uma obra de mais de um milhão de contos, sem o parque de estacionamento que o próprio arquitecto considerava indispensável, e que responde apenas a um objectivo: o capricho do arquitecto.
A diferença entre boa e má arquitectura é revelada pela forma como ambas lidam com o tempo. A boa continua e valoriza-se, a outra torna-se expiatório de políticas erradas e obsoleta perante aqueles que dela devem beneficiar. Ambas serão sempre ícones, o problema são as diferentes devoções ou rejeições que suscitam.
Falhou a gestão da mudança. À Câmara Municipal, uma vez que o arquitecto Gonçalo Byrne à muito se demitiu, resta a gestão dos danos.
As decisões tomadas contrariam o que tem sido defendido internacionalmente sobre “Ambiente Histórico”, foram contra princípios fundadores da classificação do Mosteiro como Património Mundial. Decisões que contaram com a conivência de cidadãos, políticos e organismos que deveriam ser vigilantes para com um Património que tem resistido a todas as barreiras que o Tempo lhe tem colocado. Irá sobreviver também a esta, a questão é como vamos nós viver com ela? A fractura está criada…

10 comentários:

Mário Bernardes disse...

Quando a Praça do Comércio em Lx deixou de ser um parque de estacionamento foi um escândalo. Hoje todos apreciamos o esforço.
Quando a pirâmide do Louvre em Paris foi contruída caíram os céus sobre os responsáveis. Falou-se de desrespeito pelo monumento, de falta de enquadramento e de monstro de vidro. Hoje é um dos símbolos de Paris...

Qualquer alteração à já nossa vista habituada a um tipo de praça e arquitectura seria sempre um choque. O projecto tem falhas, mas nem tantas assim. Há séculos que o Mosteiro tem parte da escadaria enterrada e não são meia dúzia de degraus a menos que lhe vão tirar a grandeza. É uma nova realidade a que os Alcobacenses se vão ter de habituar. Não é tão má assim...

capeladodesterro disse...

Mário respeito a sua opinião, mas só o vejo a referir a questão dos degraus... Sinceramente essa é uma das questões menos graves de todo este projecto. Da forma como coloca o seu comentário dá a ideia de que o eixo de todo o meu artigo é uma aversão á mudança, para aqual não estaria preparado. Nada mais errado! Queria mudança, a falada requalificação. O cenário que se apresenta é demasiado grave e o meu texto apenas aflora algumas questões. Quer perceber o porquê da minha indignação procure ler os dois pareceres do IPPAR, anteriores à providência cautelar da CREPMA, e o último parecer do mesmo IPPAR, quando das alegações finais. As contradições revelam que as preocupações técnicas são rebatidas pela má política. Tente ainda ter acesso às afirmações proferidas em tribunal pelo oarquitecto Gonçalo Byrne e a realidade daquilo que foi feito no Rossio.
Como vê o meu texto deixa muita margem de manobra para aquilo que realmente se passou. Há muito mais para dizer, mas infelizmente é tarde para mudar a obra. O meu "ruído", como alguns devem considerar, apenas se justifica porque temos de mudar de mentalidades... mas depressa!

capeladodesterro disse...
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Anónimo disse...

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Sinceramente não quis falar de si em particular mas da maioria dos Alcobacenses em geral. Concordo com algumas das suas afirmações e também não estou 100% de acordo com o resultado da obra. No entanto, dou o benefício da dúvida pois é obio que uma mudança tão radical não poderia nunca ser bem aceite à primeira vista.
Todas as obras deste calibre não são bem aceites pelas populações, a princípio, mas mais tarde ou mais cedo trarão os seus frutos. Também não nos podemos esquecer que os gostos e as opiniões variam de pessoa para pessoa e temos de respeitar as que nos são alheias. Por exemplo, as obras de requalificação da Praça da República agradaram-me. A muitas outras pessoas não. Seguidamente fiquei desiludido com outros projectos que agradaram a outros. As coisas são assim e não é possível agradar a 100% da população...
Voltando ao Rossio, também penso que não é agora que se vai discutir a obra. O projecto esteve para discussão no início e os Alcobacenses apenas se preocuparam em discutir a possibilidade de os carros atravessarem a praça ou não e as questões do estaciomento. Tudo sob o ponto de vista dos próprios interesses e esqueceram o resto.
Agora está feito. Está diferente e acredito que futuramente as pessoas até apreciem a obra. A praça original é bem mais semelhante ao que está agora do que ao que estava.
As praças deste tipo têm muitos outros tipos de vantagens e é por isso que são muitas por este mundo fora. Por exemplo a praça localizada na frente do palácio de Versalhes é completamente lisa, sem vegetação e até com um piso bastante desenquadrado...É palco de grande eventos e local de encontro de milhares de turistas.

capeladodesterro disse...

O.K. Mário!Como não rebateu nada daquilo que justifica a minha oposição ao projecto pouco tenho a acrescentar... Pessoalmente a estética é aquilo que menos me importa, provavelmente se fosse na Cova da Onça até gostaria!!
No entanto, não consigo pactuar com os atentados ao Património que assisti no Rossio e com os 7 milhões de euros gastos no projecto sem que se tivesse projectado o retorno para a cidade.
A desresponsabilização é tão grande que o próprio arquitecto responsável pela obra admitiu publicamente que a escolha dos materiais tinha sido errada e que ainda não tinham solução para a Rua D. Pedro V!! Isto passou-se à poucas semanas!!
A obra está feita e temos de viver com ela, mas não posso ser a favor desta súmula de erros, arrogâncias e algumas coisas mais graves...

Mario Bernardes disse...

Sim, nisso dou-lhe razão...

Mario Bernardes disse...

E já agora, a falta de fiscalização das obras públicas não é um dos males gerais do poder autárquico? As obras no Rossio são apenas um exemplo...
Basta reparar na estrada de acesso a Chaqueda, que com meses já é um autêntico amontoado de lombas e remendos.

Anónimo disse...

Pois claro tudo que seja novo por vezes é dificil de aceitar lá isso é verdade.
Contudo uma obra destas não se compadece com modas nem caprichos, deveria ter sido bem pensada para se fazer um trabalho de que todos nós que aqui vivemos nos podesse-mos orgulhar.
Parabens para aqueles que gostam do que está, eu não gosto , está mal , está pobre e não acrescenta nenhuma mais valia ao mosteiro.

Quanto ás comparações com o que se vê em Paris versos Alcobaça, bem a Pirâmide está desenquadrada do estilo do museu mas está bonita é impressionante obriga as pessoas a ver aquela obra de arte que além de bela ainda dá luz para a zona inferior do Museu.
Nada de comparar uma coisa com a outra , em França o Arquitecto andou para a frente aqui andaram para trás, tão simples como isto.
Já agora não é por nos habituarmo-nos a ver uma coisa que essa coisa passa a ser bela ou util